OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2179

debitam. Outrora, quando eu via vir a mim um jovem de dezoito anos, nove sobre dez vezes era para me pedir um dicionário de rimas: hoje, é para me pedir um manual de operações da bolsa."

Se as preocupações materiais se substituem às preocupações artísticas, isso, talvez, possa ser de outro modo quando se esforça por concentrar todos os pensamentos do homem sobre a vida carnal e destruir, nele, toda esperança, toda aspiração além desta existência? Essa conseqüência é lógica, inevitável, para aquele que não vê nada fora do pequeno círculo efêmero da vida presente. Quando não se vê nada atrás de si, nada diante de si, nada acima de si, sobre o que pode concentrar o pensamento se não for sobre o ponto onde se encontra? O sublime da arte é a poesia do ideal que nos transporta para fora da esfera estreita de nossa atividade; mas o ideal está precisamente nessa região extramaterial onde não se penetra senão pelo pensamento, que a imaginação concebe se os olhos do corpo não a percebem; ora, que inspiração o Espírito pode haurir no espírito do nada?

O pintor que não tivesse visto senão o céu brumoso, as estepes áridas e monótonas da Sibéria, e que cresse que ali está o Universo, poderia conceber e descrever a luz e a riqueza de tom da natureza tropical? Como quereis que os vossos artistas e os vossos poetas vos transportem para as regiões que não vêem por seus olhos da alma, que não compreendem e nas quais mesmo eles não crêem?

O Espírito não pode se identificar senão com aquilo que sabe, ou que crê ser uma verdade, e essa verdade, mesmo moral, torna-se para ele uma realidade que exprime tanto melhor quanto a sente melhor; e então, se à inteligência ele junta a a flexibilidade do talento, faz passar as suas próprias impressões nas almas dos outros; quais impressões, contudo, pode provocar aquele que não as tem?

A realidade, para o materialista, é a Terra: seu