OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2185

"Basta, para isso, lançar um olhar sobre os tipos que os medalhões e as estátuas antigas nos transmitiram intactos através dos séculos.

"A iconografia de Visconti e o museu do conde de Clarol são, entre várias outras, duas fontes onde é fácil haurir os elementos variados desse estudo interessante.

"O que toca, primeiramente, nesse conjunto de figuras, é a rudeza dos traços, a animalidade da expressão, a crueldade do olhar. Sente-se, com um arrepio involuntário, que se tem relações com pessoas que vos cortariam sem piedade em pedaços, para vos dar a comer às suas moréias, assim como fazia Polion, rico gastrônomo de Roma e familiar de Augusto.

"O primeiro Brutus (Lucius-Junius), aquele que fez cortar a cabeça aos seus dois filhos e assistiu, de sangue-frio ao seu suplício, se parece a um animal de rapina. Seu perfil sinistro empresta à águia e ao mocho o que esses dois carniceiros do ar têm de mais selvagem. Não se pode duvidar, vendo-o, que não haja merecido a vergonhosa honra que a história lhe confere; se ele matou os seus dois filhos, certamente degolou sua mãe pelo mesmo motivo.

"O segundo Brutus (Marius), que apunhalou César, seu pai adotivo, precisamente na hora em que este mais contava com o seu reconhecimento e seu amor, lembra em seus traços um tolo fanático; não tem mesmo essa beleza sinistra que o artista descobre, freqüentemente, nessa energia exagerada que impele ao crime.

"Cícero, o brilhante orador, o escritor espiritual e profundo, que deixou uma tão grande lembrança de sua passagem neste mundo, tem um rosto esborrachado e comum que devia torná-lo muito menos agradável ao ver do que ao escutar.

"Júlio César, o grande, o incomparável vencedor, o herói dos massacres, que fez sua entrada no reino das sombras com um cortejo de dois milhões de almas, que