O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VIII - EMANCIPAÇÃO DA ALMA 220

esperam a grande libertação, a liberação final deve devolvê-los ao seu verdadeiro meio.

O sonho é a lembrança do que vosso Espírito viu durante o sono. Notai, porém, que não sonhais sempre porque não recordais sempre do que vistes, ou de tudo o que vistes. Vossa alma não está em pleno desdobramento. Não é, muitas vezes, senão a lembrança da perturbação que acompanha vossa partida ou vossa volta, à qual se junta a do que fizestes ou do que vos preocupou no estado de vigília. Sem isso, como explicareis esses sonhos absurdos que têm os sábios, assim como os mais simples? Os maus Espíritos também se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.

De resto, vereis dentro em pouco se desenrolar outra espécie de sonho, tão velha quanto a que conheceis, mas vós a ignorais. O sonho de Joana, o sonho de Jacob, o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos. Esse sonho é a lembrança da alma, inteiramente desligada do corpo, a lembrança dessa segunda vida de que sempre vos falo.

Procurai distinguir bem essas duas espécies de sonhos naqueles dos quais vos lembrais; sem isso, caireis em contradição e nos erros que serão funestos à vossa fé.

Os sonhos são o produto da emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida  ativa  e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida que se estende aos lugares mais distantes, ou que jamais se viu e, algumas vezes, mesmo a outros mundos, assim como a lembrança que traz à memória os acontecimentos ocorridos na existência presente ou nas existências anteriores; a estranheza de imagens do que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeadas de coisas do mundo atual, formam esses conjuntos bizarros e confusos que parecem não ter nem sentido, nem ligação.

A incoerência dos sonhos se explica, ainda, pelas lacunas que produz a lembrança incompleta do que nos apareceu em sonho. Tal seria   uma  narração  à  qual  se  tenha  truncado frases ao acaso, ou parte de frases; os fragmentos restantes reunidos perderiam toda significação razoável.

403 – Por que não nos lembramos sempre dos sonhos?

– No que tu chamas de sono, só há o repouso do corpo, porque o Espírito está sempre em movimento. Aí ele recobra um pouco de  sua  liberdade  e  se  corresponde  com  aque-