OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2219

§ III. DOUTRINA DEÍSTA.

O deísmo compreende duas categorias bem distintas de crentes: os deístas independentes e os deístas providenciais.

Os deístas independentes crêem em Deus; admitem todos os seus atributos como criador. Deus, dizem eles, estabeleceu as leis gerais que regem o Universo, mas essas leis, uma vez criadas, funcionam sozinhas, e seu autor não se ocupa mais de nada. As criaturas fazem o que querem ou o que podem, sem que com isso se inquietem. Não há, providência; Deus, não se ocupando conosco, nada há a agradecer-lhe, nem a pedir-lhe.

Aqueles que negam toda intervenção da providência na vida do homem são como crianças que se crêem bastante razoáveis para se livrarem da tutela, dos conselhos e da proteção de seus pais, ou que pensariam que seus pais não devem mais se ocupar delas, desde que as colocou no mundo.

Sob o pretexto de glorificar a Deus, muito grande, dizem, para se abaixar até as suas criaturas, fazem dele um grande egoísta e o abaixam ao nível dos animais que abandonam seus progenitores aos elementos.

Esta crença é resultado do orgulho; é sempre o pensamento de estar submetido a uma força superior que melindra o amor-próprio e da qual procura libertar-se. Ao passo que uns recusam absolutamente essa força, outros consentem em reconhecer a sua existência, mas a condenam à nulidade.

Há uma diferença essencial entre o deísta independente dos quais acabamos de falar, e o deísta providencial; este último, com efeito, crê não só na existência e no poder criador de Deus, na origem das coisas; crê ainda em sua intervenção incessante na criação e a pede, mas não admite o culto exterior e o dogmatismo atual.