OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2220

§ IV. DOUTRINA DOGMÁTICA.

A alma, independente da matéria, é criada no nascimento de cada ser; sobrevive e conserva a sua individualidade depois da morte; a sua sorte está, desde esse momento, irrevogavelmente fixada; os seus progressos ulteriores são nulos; ela será, conseqüentemente, por toda a eternidade, intelectual e moralmente, o que era durante a vida. Sendo os maus condenados a castigos perpétuos e irremissíveis no inferno, disso ressalta, para eles, a inutilidade completa do arrependimento; Deus parece, assim, se recusar a lhes deixar a oportunidade de reparar o mal que fizeram. Os bons são recompensados pela visão de Deus e a contemplação perpétua no céu. Os casos que podem merecer, pela eternidade, o céu ou o inferno, são deixados para a decisão e o julgamento de homens falíveis, a quem é dado absolver ou condenar.

(Nota. Se se objetasse, a esta última proposição, que Deus julga em última instância, poder-se-ia perguntar qual é o valor da decisão pronunciada pelos homens, uma vez que pode ser revogada.)

Separação definitiva e absoluta dos condenados e dos eleitos. Inutilidade dos auxílios morais e das consolações para os condenados. Criação de anjos ou almas privilegiadas isentas de todo trabalho para chegar à perfeição, etc., etc.

Conseqüências. Esta doutrina deixa sem solução os graves problemas seguintes:

1º De onde vêm as disposições inatas, intelectuais e morais, que fazem com que os homens nasçam bons ou maus, inteligentes ou idiotas?

2º Qual é a sorte das crianças que morrem em tenra idade?

Por que entram elas na vida feliz sem o trabalho ao qual outras estão sujeitas durante longos anos?

Por que são recompensadas sem terem podido