O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VIII - EMANCIPAÇÃO DA ALMA 235

no cérebro, na região epigástrica ou no órgão que, para eles, é o ponto de ligação, o mais tenaz, entre o Espírito e o corpo.

O poder da lucidez sonambúlica não é indefinido. O Espírito, mesmo completamente livre, está limitado em suas faculdades e em seus conhecimentos segundo o grau de perfeição que atingiu, e mais ainda quando está ligado à matéria da qual sofre a influência. Essa a causa pela qual a clarividência sonambúlica não é nem universal, nem infalível. Pode-se tanto menos contar com sua infalibilidade quando se desvia do objetivo proposto pela Natureza e quando se faz objeto de curiosidade e de experimentação.

No estado de desprendimento em que se encontra o Espírito do sonâmbulo, ele entra em comunicação mais fácil com os outros Espíritos, encarnados ou não encarnados. Essa comunicação se estabelece pelo contato dos fluidos que compõem os perispíritos e servem de transmissão ao pensamento como o fio elétrico. O sonâmbulo não tem necessidade de que o pensamento seja articulado pela palavra; ele o sente e a adivinha. É isso que o torna eminentemente impressionável e acessível às influências da atmosfera moral na qual se encontra. É por isso que o concurso numeroso de espectadores, e sobretudo de curiosos mais ou menos malévolos, prejudica essencialmente o desenvolvimento de suas faculdades que se recolhem, por assim dizer, em si mesmas, e não se desdobram com toda a liberdade senão na intimidade e em um meio simpático. A presença de pessoas malévolas ou antipáticas produz sobre ele o efeito do contato da mão sobre a sensitiva ( * ).

O sonâmbulo vê, ao mesmo tempo, seu próprio Espírito e seu corpo que são, por assim dizer, dois seres que lhe representam a dupla existência, espiritual e corporal, que, entretanto, se confundem nos laços que as unem. O sonâmbulo nem sempre se apercebe dessa situação, e  essa dualidade faz que, freqüentemente, ele fale de si mesmo como se estivesse falando de uma pessoa estranha; é que ora é o ser corporal que fala ao ser espiritual, ora é o ser espiritual que fala ao ser corporal.

O Espírita adquire um acréscimo de conhecimento e de experiência a cada uma de  suas  existências  corporais.  Ele


( * ) Nota do Tradutor: O Autor se refere à planta chamada sensitiva, que se fecha ao contato da mão.