O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VIII - EMANCIPAÇÃO DA ALMA 236

os esquece em parte durante sua encarnação, na matéria muito grosseira, mas se lembra deles como Espírito.

Assim é que certos sonâmbulos revelam conhecimentos superiores ao grau de sua instrução e mesmo de sua capacidade intelectual aparente. A inferioridade intelectual e científica do sonâmbulo no estado de vigília não prejulga, portanto, em nada sobre os conhecimentos que ele pode revelar no estado de lucidez. Segundo as circunstâncias e o objetivo a que se propôs, pode hauri-las na sua própria experiência, na clarividência das coisas presentes ou nos conselhos que recebe de outros Espíritos. Todavia, como seu próprio Espírito pode ser mais ou menos avançado, ele pode dizer coisas mais ou menos justas.

Pelos fenômenos do sonambulismo, seja natural, seja magnético, a Providência nos dá a prova irrecusável da existência e da independência da alma, e nos faz assistir ao espetáculo sublime de sua emancipação; por este meio nos abre o livro do nosso destino. Quando o sonâmbulo descreve o que se passa à distância, é evidente que ele vê, e isto não pelos olhos do corpo; vê a si mesmo naquele lugar e se sente transportado para lá. Lá, tem, portanto, alguma coisa dele, e essa alguma coisa, não sendo seu corpo, não pode ser senão sua alma ou seu Espírito. Enquanto o homem se perde nas sutilezas de uma metafísica abstrata e ininteligível para pesquisar as causas de nossa existência moral, Deus coloca, diariamente, sob seus olhos e sob suas mãos os meios, os mais simples e os mais patentes, para o estudo da psicologia experimental.

O êxtase é o estado no qual a independência da alma e do corpo se manifesta de maneira mais sensível e se torna, de alguma sorte, palpável.

No sonho e no sonambulismo a alma erra nos mundos terrestres; no êxtase ela penetra em um mundo desconhecido, naquele dos Espíritos etéreos, com os quais ela entra em comunicação sem poder, todavia, ultrapassar certos limites que não poderia transpor sem romper totalmente os laços que a liga ao corpo. Um estado resplandecente, todo novo, a circunda, harmonias desconhecidas sobre a Terra a arrebatam, um bem-estar indefinível a penetra: ela frui por antecipação da beatitude celeste, e pode-se dizer que põe um pé sobre o limiar da eternidade.

No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase