O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VIII - EMANCIPAÇÃO DA ALMA 237

completo, não há mais, por assim dizer, que a vida orgânica, e sente-se que a alma não se prende a ele senão por um fio que um esforço a mais faria romper para sempre.

Nesse estado, todos os pensamentos terrestres desaparecem para dar lugar ao sentimento purificado que é a essência mesma de nosso ser imaterial. Inteiramente nessa contemplação sublime, o extático não considera a vida senão uma paragem momentânea. Para ele os bens e os males, os prazeres grosseiros e as misérias deste mundo não são mais que os incidentes fúteis de uma viagem da qual está feliz de ver o termo.

Os extáticos são como os sonâmbulos: sua lucidez pode ser mais ou menos perfeita, e seu próprio Espírito, segundo sejam mais ou menos elevado, também está mais ou menos apto a conhecer e a compreender as coisas. Há, algumas vezes, neles, mais de exaltação que de verdadeira lucidez, ou, melhor dizendo, sua exaltação prejudica sua lucidez; é por isso que suas revelações são, freqüentemente, uma mistura de verdades e de erros, de coisas sublimes e de coisas absurdas ou mesmo ridículas. Os Espíritos inferiores aproveitam, freqüentemente, dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não se sabe reprimi-la, para dominar o extático, e com esse efeito cobrem seus olhos de aparência que o entretêm nas idéias ou preconceitos da vigília. É isso um escolho, mas não são todos assim; cabe a nós julgar friamente e pesar suas revelações na balança da razão.

A emancipação da alma se manifesta algumas vezes no estado de vigília e produz o fenômeno designado sob o nome de segunda vista que dá àqueles que dele são dotados a faculdade de ver, de ouvir e de sentir além dos limites dos nossos sentidos. Eles percebem as coisas ausentes, por todas as partes onde a alma estende sua ação; as vêem, por assim dizer, através da vista ordinária e como por uma espécie de miragem.

No momento em que se produz o fenômeno da segunda vista, o estado físico está sensivelmente modificado; o olho tem alguma coisa de vago: ele olha sem ver. Toda a fisionomia reflete uma espécie de exaltação. Constata-se que os órgãos da vista são estranhos àquilo em que a visão persiste, malgrado a oclusão dos olhos.

Esta faculdade parece, àqueles que a possuem, natural como a de ver; é para eles um atributo de  seu  ser  que  não