OBRAS PÓSTUMAS - SEGUNDA PARTE 2390

o risco de todo escritor que pode vencer, como pode fracassar.

"Se bem que, sob esse aspecto, não tenha nenhuma conta a prestar, creio útil, pela própria causa à qual estou votado, dar algumas explicações.

"Quem viu o nosso interior outrora, e o vê hoje, pode atestar que nada mudou em nossa maneira de viver desde que me ocupo de Espiritismo; é muito simples agora como o fora outrora. É certo, pois, que meus benefícios, quaisquer que sejam, não servem para me dar os gozos do luxo. Por que isso acontece?

"O Espiritismo, tirando-me da obscuridade, veio me lançar num caminho novo; em pouco tempo encontrei-me arrastado por um movimento que estava longe de prever. Quando concebi a idéia de O Livro dos Espíritos, a minha intenção era de não me pôr em evidência e ficar desconhecido; mas, prontamente ultrapassado, isso não me foi possível: devi renunciar aos meus gostos de solidão, sob pena de abdicar a obra empreendida e que crescia cada dia; foi-me necessário seguir o impulso e tomar-lhe as rédeas. À medida que ela se desenvolvia, um horizonte mais vasto se desenrolava diante de mim e lhe recuava os limites; compreendi, então, a imensidade de minha tarefa, e a importância do trabalho que me restava a fazer para completá-la; as dificuldades e os obstáculos, longe de me assustarem, redobraram a minha energia; vi o objetivo e resolvi alcançá-lo com a assistência dos bons Espíritos. Sentia que não tinha tempo a perder e que não o perdi nem em visitas inúteis, nem em cerimônias ociosas; essa foi a obra de minha vida; dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde, porque o futuro estava escrito diante de mim em caracteres irrecusáveis.

"Sem nos afastarmos de nosso gênero de vida, essa posição excepcional não nos criou menos necessidades às quais, só os meus recursos pessoais, muito limitados, não me permitiam prover. Seria difícil