O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. XI - OS TRÊS REINOS 279

OS ANIMAIS E O HOMEM.

592 – Se compararmos o homem e os animais, com respeito à inteligência, a linha demarcatória parece difícil de ser estabelecida, porque certos animais têm, a esse respeito, uma superioridade notória sobre certos homens. Essa linha demarcatória pode ser estabelecida de maneira precisa?

– Sobre esse ponto vossos filósofos não estão quase nada de acordo. Uns querem que o homem seja um animal, outros que o animal seja um homem; estão todos errados. O homem é um ser à parte que se rebaixa, algumas vezes, muito baixo, ou que pode se elevar bem alto. Fisicamente o homem é como os animais e menos dotado, que muitos deles. A Natureza lhes deu tudo aquilo que o homem é obrigado a inventar com sua inteligência para sua necessidades e sua conservação. É verdade que seu corpo se destrói como o dos animais, mas seu Espírito tem um destino que só ele pode compreender, porque só ele é completamente livre. Pobres homens, que vos rebaixais abaixo da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei o homem pelo pensamento de Deus.

593 – Pode-se dizer que os animais não agem senão por instinto?

– Isso é ainda um sistema. É verdade que domina o instinto, na maioria dos animais, mas não vês que agem com uma vontade determinada? É da inteligência, embora limitada.

Além do instinto, não se pode denegar a certos animais atos combinados que denota uma vontade de agir com sentido determinado e segundo as circunstâncias. Há portanto, neles, uma espécie de inteligência, cujo exercício é mais exclusivamente concentrado sobre os meios de satisfazerem suas necessidades físicas e proverem à sua conservação. Entre eles, nenhuma criação, nenhuma melhora. Qualquer que seja a arte que admiremos em seus trabalhos, aquilo que faziam outrora o fazem hoje, nem melhor, nem pior, segundo formas e  proporções constantes e invariáveis. O filhote, isolado dos demais da sua espécie, por causa disso não deixa de construir seu ninho com o mesmo modelo, sem ter recebido ensinamento. Se alguns são suscetíveis de uma certa educação, seu desenvolvimento intelectual, sempre fechado em limites estreitos, é devido à ação do homem sobre uma natureza flexível, porque não tem nenhum progresso que lhe seja próprio. Esse progresso é efêmero e puramente individual, porque o animal, entregue a si mesmo, não tarda a retornar para os limites estreitos traçados pela Natureza.