O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. XI - OS TRÊS REINOS 285

dizer, do estado em que esteve no período que se poderia chamar ante-humano?

– Depende da distância que separa os dois períodos e o progresso alcançado. Durante algumas gerações, ele pode ter um reflexo mais ou menos pronunciado do estado primitivo; porque nada na Natureza se faz por transição brusca. Há sempre anéis que ligam as extremidades das cadeias dos seres e dos acontecimentos; mas esses traços se apagam com o desenvolvimento do livre arbítrio. Os primeiros progressos se cumprem lentamente, porque não estão ainda secundados pela vontade; eles seguem uma progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire uma consciência mais perfeita de si mesmo.

610 – Os Espíritos que disseram que o homem é um ser à parte na ordem da criação, enganaram-se?

– Não, mas a questão não foi desenvolvida e, aliás, há coisas que não podem chegar senão em seu tempo. O homem é, com efeito, um ser à parte, porque ele tem faculdades que o distinguem de todos os outros e tem um outro destino. A espécie humana é aquela que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-lo.

METEMPSICOSE.

611 – A comunidade de origem dos seres vivos no princípio inteligente não é uma consagração da doutrina da metempsicose?

– Duas coisas podem ter uma mesma origem e não se assemelharem absolutamente mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe contido na semente de onde ela saiu? Do momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, ele não tem mais relação com seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, não há mais do animal senão o corpo, e as paixões que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode, então, dizer que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal e, por conseguinte, a metempsicose, tal como é entendida, não é exata.