O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. II - LEI DE ADORAÇÃO 303

deu-lhe os atributos da natureza corporal, quer dizer, uma forma e uma aparência e, desde então, tudo que lhe parecia ultrapassar as proporções da inteligência vulgar era para ele uma divindade. Tudo o que não compreendia, devia ser obra de uma força sobrenatural, e daí a crença em tantas potências distintas, da qual via os efeitos, não havia senão um passo. Mas, em todos os tempos, houve homens esclarecidos que compreenderam a impossibilidade dessa multidão de poderes para governar o mundo sem uma direção superior, e se elevaram ao pensamento de um Deus único.

668 – Os fenômenos espíritas, tendo se produzido em todos os tempos e sendo conhecidos desde as primeiras idades do mundo, não fizeram crer na pluralidade dos deuses?

– Sem dúvida, porque os homens chamando deus tudo o que era sobre-humano, os Espíritos eram deuses para eles e é por isso que, quando um homem se distinguia entre todos os outros por suas ações, seu gênio ou por um poder oculto, incompreendido pelo vulgo, faziam-no um deus e se lhe rendia um culto depois de sua morte (603).

A palavra deus, entre os Antigos, tinha uma acepção muito extensa. Não era, como em nossos dias, uma personificação do senhor da Natureza; era uma qualificação genérica dada a todo ser colocado fora das condições de humanidade. Ora, as manifestações espíritas revelando-lhes a existência de seres incorpóreos agindo como potências da Natureza, eles os chamaram deuses, como nós os chamamos Espíritos. É uma simples questão de palavras, com a diferença de que na sua ignorância, mantida de propósito por aqueles que nisso tinham interesse, eles lhes elevaram templos e altares muito lucrativos, enquanto que, para nós, eles são simples criaturas, como nós, mais ou menos perfeitas e despojadas do seu envoltório terrestre. Se se estuda os diversos atributos das divindades pagãs, reconhecem-se, sem  dificuldade,  todos  os atributos dos nossos Espíritos, em todos os graus da escala espírita, seu estado físico nos mundos superiores, todas as propriedades do perispírito e o papel que eles desempenham nas coisas da Terra.

O Cristianismo, vindo clarear o mundo com sua luz divina, não podia destruir uma coisa que está na Natureza, mas orientou a adoração para aquele a quem ela cabia. Quanto aos Espíritos, sua lembrança está perpetuada sob diversos nomes, segundo os povos e suas manifestações, que não cessaram jamais, foram diversamente interpretadas e, freqüentemente, exploradas sob o domínio do mistério. Enquanto que a religião aí viu fenômenos miraculosos, os incrédulos viram embustes. Hoje,  graças a estudos mais sérios, feitos com mais luz, o Espiritismo, liberto de idéias supersticiosas que o obscureceram através dos séculos,  nos  revela  um dos maiores e mais sublimes princípios da Natureza.