O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. III - LEI DO TRABALHO 309

LIMITE DO TRABALHO. REPOUSO.

682 – O repouso, depois do trabalho, sendo uma necessidade, não é uma lei natural?

– Sem dúvida, o repouso serve para reparar as forças do corpo e é também necessário, a fim de deixar um pouco mais de liberdade à inteligência, para se elevar acima da matéria.

683 – Qual é o limite do trabalho?

–   O  limite das forças; de resto, Deus deixa o homem livre.

684 – Que pensar daqueles que abusam de sua autoridade para impor aos seus inferiores um excesso de trabalho?

– É uma das piores ações. Todo homem que tem o poder de comandar é responsável pelo excesso de trabalho que impõe a seus subalternos, porque ele transgride a lei de Deus. (273)

685 – O homem tem direito ao repouso em sua velhice?

– Sim, ele não está obrigado senão segundo suas forças.

– Mas que recurso tem o velho necessitado de trabalhar para viver e que não o pode?

– O forte deve trabalhar pelo fraco; na falta da família, a sociedade deve tomar-lhe o lugar: é a lei da caridade.

Não é tudo dizer ao homem que ele deve trabalhar, é preciso ainda que aquele que espera sua existência do seu labor encontre em que se ocupar, e é o que nem sempre ocorre. Quando a suspensão do trabalho se generaliza, toma as proporções de um flagelo como a miséria. A ciência econômica procura o remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo; mas esse equilíbrio, supondo-se que seja possível, terá sempre intermitências e, durante esses intervalos, o trabalhador não deve viver menos. Há um elemento que, comumente, não entra na balança e sem o qual a ciência econômica não é mais que uma teoria: a educação. Não a educação intelectual, mas a educação moral, e não, ainda, a educação moral pelos livros, mas aquela que consiste na arte de formar os caracteres, a que dá os hábitos: porque a educação é o conjunto de hábitos adquiridos. Quando se pensa na massa de indivíduos jogados cada dia na torrente da população, sem princípios, sem freios e entregues aos seus próprios instintos, deve-se espantar das conseqüências desastrosas que resultam? Quando essa arte for conhecida, cumprida e praticada, o homem ocasionará no mundo hábitos de ordem e de previdência para si mesmo e os seus, de respeito por tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar, menos penosamente, os maus dias inevitáveis. A desordem  e  a imprevidência são duas chagas que  só  uma educação bem entendida pode curar. Esse é o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos.