O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. V - LEI DE CONSERVAÇÃO 315

vidência. A terra produzidiria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se ela não basta a todas as necessidades é porque o homem emprega no supérfluo o que poderia ser dado ao necessário. Veja o árabe no deserto: ele encontra sempre com que viver, porque não cria para si necessidades artificiais. Quando a metade dos produtos é esbanjada para satisfazer fantasias, o homem deve se espantar de nada encontrar no dia de amanhã e há razão para se lastimar de estar desprovido quando vem o tempo da escassez? Em verdade, eu vo-lo disse, não é a Natureza que é imprevidente, mas o homem que não sabe se regrar.

706 – Por bens da terra somente devem se entender os produtos do solo?

– O solo é a fonte primeira de onde provêm todos os outros recursos, porque, em definitivo, esses recursos não são senão uma transformação dos produtos do solo. Por isso, é preciso entender pelos bens da terra tudo aquilo de que o homem pode desfrutar neste mundo.

707 – Os meios de existência, freqüentemente, fazem falta a certos indivíduos, mesmo em meio à abundância que os cerca; a que se deve atribuir isso?

–  Ao egoísmo dos homens, que não fazem sempre o que devem; depois, e o mais freqüentemente, a eles mesmos. Procurai e encontrareis; estas palavras não querem dizer que basta olhar a terra para encontrar o que se deseja, mas que é preciso procurá-lo com ardor e perseverança, e não com fraqueza, sem se deixar desencorajar pelos obstáculos que, freqüentemente, não são senão meios de pôr à prova vossa constância, vossa paciência e vossa firmeza. (534)

Se a civilização multiplica as necessidades, ela multiplica também as fontes de trabalho e os meios de viver; mas é preciso convir que, sob esse aspecto, muito lhe resta ainda a fazer. Quando ela tiver terminado sua obra, ninguém poderá dizer que lhe falta o necessário, senão por sua falta. A infelicidade, para muitos, resulta de tomarem um caminho que não é aquele que a Natureza lhes traçou; então lhes falta a inteligência para terem êxito. Há para todos lugar ao Sol, mas com a condição de aí tomar o seu, e não o dos outros. A Natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas conseqüências da ambição e do amor-próprio.

Entretanto, precisar-se-ia ser cego para não se reconhecer o progresso que se efetua sob esse aspecto entre os povos mais avançados. Graças aos louváveis esforços que a filantropia e a ciência juntas não cessam de fazer para o melhoramento  do estado