O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. X - LEI DE LIBERDADE 354

LIVRO III. – CAPÍTULO X

– Quanto mais inteligência tenha o homem para compreender um princípio, menos é escusável de não aplicá-lo a si mesmo. Digo-vos, em verdade, que o homem simples, mas sincero, está mais avançado no caminho de Deus do que aquele que quer parecer o que não é.

ESCRAVIDÃO.

829 – Há homens que sejam, por natureza, destinados a serem de propriedade de outros homens?

– Toda sujeição absoluta de um homem a outro homem é contrária à lei de Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso, como desaparecerão, pouco a pouco, todos os abusos.

A lei humana que consagra a escravidão é uma lei anti-natural, visto que assemelha o homem ao animal e o degrada moral e fisicamente.

830 – Quando a escravidão está nos costumes de um povo, os que dela se aproveitam são repreensíveis, visto que não fazem senão se conformar a um uso que lhes parece natural?

– O mal é sempre o mal, e todos os vossos sofismas não farão que uma ação má se torne boa. Mas a responsabilidade do mal é relativa aos meios que se tem de compreendê-lo. Aquele que tira proveito da lei da escravidão é sempre culpado de uma violação da lei natural, mas nisso como em todas as coisas, a culpabilidade é relativa. A escravidão, tendo passado nos costumes de certos povos, o homem pôde aproveitá-la de boa-fé e como de uma coisa que lhe parecia natural, mas, desde que sua razão mais desenvolvida, e sobretudo esclarecida pelas luzes do Cristianismo, mostrou-lhe o escravo como um seu igual diante de Deus, ele não tem mais desculpa.

831 – A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência de raças mais inteligentes?

– Sim, para as erguer e não para as embrutecer ainda mais pela servidão. Os homens, durante muito tempo, têm olhado certas raças humanas como animais de trabalho, munidos de braços e mãos, que   se  julgaram  no  direito  de os vender como bestas de carga. Eles se crêem de um  sangue