O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. X - LEI DE LIBERDADE 366

RESUMO TEÓRICO DA MOTIVAÇÃO DAS

AÇÕES DO HOMEM.

872 – A questão do livre arbítrio pode ser resumida assim: o homem não é fatalmente conduzido ao mal; os atos que ele realiza não estão antecipadamente escritos; os crimes que ele comete não resultam de uma sentença do destino. Ele pode, como prova e como expiação, escolher uma existência em que terá os arrastamentos do crime, seja pelo meio em que está colocado, seja pelas circunstâncias que sobrevirão, mas está sempre livre para agir ou não agir. Assim, no estado de Espírito, o livre arbítrio existe na escolha da existência e das provas, e no estado corporal, na faculdade de ceder, ou de resistir, aos arrastamentos aos quais estamos voluntariamente submetidos. Cabe à educação combater essas más tendências e o fará utilmente quando estiver baseada no estudo profundo da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral, chegar-se-á a modificá-la, como se modifica a inteligência pela instrução, e o temperamento pela higiene.

O Espírito liberto da matéria, e no estado errante, faz a escolha de suas existências corporais futuras, segundo o grau de perfeição que alcançou e é nisso, como dissemos, que consiste, sobretudo, seu livre arbítrio. Essa liberdade não é anulada pela encarnação; se cede à influência da matéria, é porque sucumbe sob as próprias provas que escolheu e é para ajudá-lo a superá-las que ele pode invocar a assistência de Deus e dos bons Espíritos (337).

Sem o livre arbítrio o homem  não  tem nem  demérito no mal,  nem  mérito  no bem, e isso é  igualmente  reconhecido no mundo, onde se proporciona sempre a censura ou o elogio à intenção, quer dizer à vontade. Ora, quem diz vontade, diz liberdade. O homem, portanto, não saberia procurar uma desculpa de suas faltas no seu organismo sem abdicar de sua razão e de sua condição de ser humano, para se assemelhar ao animal. Se assim o é para o mal, o será também para o bem. Mas quando o  homem  faz  o  bem,  tem grande cuidado em se fazer merecedor e  não  procura,  por isso, gratificar seus  órgãos,  o  que  prova  que, instintivamente, ele não renuncia, malgrado a opinião de alguns sistemáticos, ao melhor privilégio de sua espécie: a  liberdade de pensar.