O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO III - CAP. X - LEI DE LIBERDADE 368

sa para suas faltas, aos seus próprios olhos, dizendo que isso não é sua falta, desde que foi feito assim. A Doutrina Espírita, evidentemente, é mais moral.  Ela  admite, no homem, o livre arbítrio em toda a  sua  plenitude,  e  dizendo-lhe  que se ele faz o mal, cede a uma sugestão má exterior, deixa-lhe toda a responsabilidade visto que lhe reconhece o poder de resistir, coisa, evidentemente, mais fácil que se tivesse que lutar contra  sua  própria  natureza.  Assim,  segundo a Doutrina Espírita, não há arrastamento irresistível:  o homem pode sempre fechar o ouvido à voz oculta que  o  solicita ao mal em seu foro íntimo, como pode fechá-lo à voz material de quem lhe fala. Ele o pode por sua vontade, pedindo a Deus a  força  necessária,  e  reclamando  para  isso  a assistência dos bons Espíritos. É o que Jesus nos ensina na prece  sublime  da  Oração  dominical,  quando   nos  faz dizer: "Não nos deixeis sucumbir à tentação, mas livrai-nos do mal."

Essa teoria da causa excitante de nossos atos ressalta evidentemente de todo o ensinamento dado pelos Espíritos. Não somente ela é sublime em moralidade, mas acrescentaremos que revela o homem a si mesmo. Ela o mostra livre para sacudir um jugo obsessor, como é livre para fechar sua casa aos importunos. Ele não é mais uma máquina agindo por um impulso independente de sua vontade, é um ser racional que escuta, julga e escolhe livremente entre dois conselhos. Admitamos que, malgrado isso, o homem não está privado de sua iniciativa, não age menos por impulso próprio, visto que, em definitivo, ele não é senão um Espírito encarnado que conserva, sob o envoltório corporal, as qualidades e os defeitos que tinha como Espírito. As faltas que cometemos têm, pois, sua fonte primeira nas imperfeições de nosso próprio Espírito, que não atingiu ainda a superioridade moral que terá um dia, mas que nem por isso tem diminuído o seu livre arbítrio. A vida corporal lhe é dada para se livrar das suas imperfeições pelas provas que nela deve suportar, e são precisamente essas imperfeições que o tornam mais fraco e mais acessível às sugestões dos outros Espíritos imperfeitos que delas se aproveitam para o fazer sucumbir nas lutas que empreende. Se ele sai vencedor dessa luta, se eleva; se fracassa, permanece aquilo que foi, nem pior nem melhor. É uma prova para recomeçar, e pode durar muito tempo assim. Quanto mais ele se depura, mais essas fraquezas diminuem e menos se expõe àqueles que o solicitam para o mal. Sua  força  moral cresce