O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 409

– Sim, os prazeres do animal; e quando não podes satisfazer essas necessidades, é uma tortura.

969 – O que é preciso entender quando se diz que os Espíritos puros estão reunidos no seio de Deus e ocupados em lhe cantar louvores?

– É uma alegoria que pinta a inteligência que eles têm das perfeições de Deus, porque vêem e o compreendem, mas que não é preciso mais prender à letra como muitas outras. Tudo na Natureza, desde o grão de areia, canta, quer dizer, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus. Mas não creias que os Espíritos bem-aventurados estejam em contemplação durante a eternidade, pois isso seria uma felicidade estúpida e monótona. Seria mais a do egoísta, uma vez que sua existência seria uma inutilidade sem termo. Eles não têm mais as tribulações da existência corporal: já é um gozo. Aliás, como dissemos, eles conhecem e sabem todas as coisas e aproveitam a inteligência que adquiriram para ajudar o progresso dos outros Espíritos. É sua ocupação e, ao mesmo tempo, um prazer.

970 – Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?

– Eles são tão variáveis quanto as causas que os produziram, e proporcionais ao grau de inferioridade, como os gozos o são para os graus de superioridade. Podem se resumir assim: Invejarem tudo o que lhes falta para serem felizes e não poderem obtê-lo; verem a felicidade e não poderem atingi-la; desgosto, ciúme, raiva, desespero daquilo que os impede de ser feliz; remorso, ansiedade moral indefinível. Eles têm o desejo de todos os prazeres e não podem satisfazê-los, e é o que os tortura.

971 – A influência que os Espíritos exercem, uns sobre os outros, é sempre boa?

– Sempre boa da parte dos bons Espíritos, claro. Mas os Espíritos perversos procuram desviar do caminho do bem e do arrependimento os que eles crêem suscetíveis de se deixar arrastar, e que, freqüentemente, arrastaram ao mal durante a vida.

– Assim, a morte não nos livra da tentação?

– Não, mas a ação dos maus Espíritos é muito menor sobre os outros Espíritos que sobre os homens, porque eles não têm por auxiliares as paixões materiais. (996).