O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 411

– Imagem, como tantas outras coisas, tomadas pela realidade.

– Mas esse medo não pode ter um bom resultado?

– Vede, pois, se ele reprime muito, mesmo entre os que a ensinam. Se ensinais coisas que a razão rejeita mais tarde, fareis uma impressão que não será nem durável, nem salutar.

O homem, não podendo mostrar, pela sua linguagem, a natureza desses sofrimentos, não encontrou comparação mais enérgica que a do fogo, porque para ele o fogo é o tipo do mais cruel suplício e o símbolo da ação mais enérgica. É por isso que a crença no fogo eterno remonta à mais alta antiguidade e os povos modernos a herdaram dos povos antigos. É por isso também que, em sua linguagem figurada, ele diz: o fogo das paixões; queimar-se de amor, de ciúme, etc. etc.

975 – Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo?

– Sim, e é isso que faz seu suplício, porque compreendem que estão privados dela por suas faltas. É por isso que o Espírito, liberto da matéria, aspira depois a uma nova existência corporal, porque cada existência pode abreviar a duração desse suplício, se ela é bem empregada. Ele faz, então, a escolha das provas pelas quais poderá expiar suas faltas, porque, sabei-o bem, o Espírito sofre por todo o mal que faz, ou do qual foi a causa voluntária, por todo o bem que poderia fazer e que não fez, e por todo o mal que resulta do bem que ele não fez. O Espírito errante não tem mais véu, está como saído do nevoeiro e vê o que o afasta da felicidade. Então, sofre mais, porque compreende quanto é culpado. Para ele não há mais ilusão: vê a realidade das coisas.

O Espírito, no estado errante, abraça de um lado todas as suas existências passadas, de outro vê o futuro prometido e compreende o que lhe falta para atingi-lo. Tal como um viajor que chegou ao alto de uma montanha, vê o caminho percorrido e o que lhe resta a percorrer para chegar ao seu objetivo.

976 – A visão dos Espíritos que sofrem não é para os bons uma causa de aflição? Em que se torna sua felicidade, se é perturbada?

– Não é uma aflição, posto que sabem que o mal terá um fim. Eles ajudam os outros a progredirem e estendem-lhes a mão. Essa é sua ocupação e um prazer quando têm êxito.