O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 412

LIVRO IV. – CAPÍTULO II

– Isso se concebe da parte dos Espíritos estranhos ou indiferentes; mas a visão dos pesares e dos sofrimentos daqueles que amaram sobre a Terra, não perturba sua felicidade?

– Se não vissem esses sofrimentos, é que vos seriam estranhos depois da morte. Ora, a religião vos diz que as almas vos vêem; mas eles consideram vossas aflições sob um outro ponto de vista, pois sabem que esses sofrimentos são úteis ao vosso adiantamento se os suportais com resignação. Eles se afligem, pois, mais com a falta de coragem que vos retarda, que com os sofrimentos em si mesmos, que não são senão passageiros.

977 – Os Espíritos, não podendo se esconder reciprocamente seus pensamentos, e todos os atos da vida sendo conhecidos, seguir-se-ia que o culpado está na presença perpétua de sua vítima?

– Isso não pode ser de outro modo, o bom senso o diz.

– Essa divulgação de todos os nossos atos repreensíveis e a presença perpétua daqueles que lhe foram as vítimas são um castigo para o culpado?

– Maior do que se pensa, mas somente até que ele tenha expiado suas faltas, seja como Espírito, seja como homem, nas novas existências corporais.

Quando estivermos no mundo dos Espíritos, todo o nosso passado estando a descoberto, o bem e o mal que fizemos serão igualmente conhecidos. É em vão que aquele que fez o mal queira escapar da visão de suas vítimas: sua presença inevitável será para ele um castigo e um remorso incessante até que tenha expiado seus erros, enquanto que o homem de bem, ao contrário, não encontrará, por toda parte senão olhares amigos e benevolentes. Para o mau, não há maior tormento sobre a Terra, que a presença de suas vítimas e, por isso, ele as evita sem cessar. Que será quando a ilusão das paixões estando dissipada, ele compreender o mal que fez, vendo seus atos mais secretos revelados, sua hipocrisia desmascarada, e não podendo se subtrair à sua visão?

Enquanto a alma do homem perverso está atormentada pela vergonha, pelo desgosto e pelo remorso, a do justo goza de uma serenidade perfeita.

978 – A lembrança das faltas que a alma pôde cometer quando era imperfeita, não perturba sua felicidade, mesmo depois que ela está depurada?

– Não, porque resgatou suas faltas e saiu vitoriosa das provas às quais se submeteu com esse fim.