O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 413

979 – As provas que restam a suportar para rematar sua purificação não são para a alma uma apreensão penosa, que perturba a sua felicidade?

– Para a alma que está ainda enlameada, sim; é por isso que ela não pode gozar de uma felicidade perfeita, senão quando esteja purificada; mas para aquela que já se elevou, o pensamento das provas que lhe restam a suportar, nada tem de penoso.

A alma que alcançou certo grau de pureza já goza a felicidade. Um sentimento de doce satisfação a penetra e ela é feliz por tudo aquilo que vê, por tudo que a cerca. O véu se levanta para ela sobre os mistérios e as maravilhas da criação, e as perfeições divinas lhe aparecem em todo o seu esplendor.

980 – O laço simpático que une os Espíritos da mesma ordem é para eles uma fonte de felicidade?

– A união dos Espíritos que se simpatizam para o bem é, para eles, uma das maiores alegrias, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no mundo inteiramente espiritual, famílias com o mesmo sentimento, e é nisso que consiste a felicidade espiritual, como no teu mundo vos agrupais em categorias, e sentis um certo prazer quando vos reunis. A afeição pura e sincera que experimentam, e da qual eles são o objeto, é uma fonte de felicidade, porque lá não há falsos amigos, nem hipócritas.

O homem sente as premissas dessa felicidade sobre a Terra, quando encontra almas com as quais pode se confundir numa união pura e santa. Em uma vida mais depurada, essa alegria será inefável e sem limites, porque não reencontrará senão almas simpáticas que o egoísmo não arrefece, porque tudo é amor na Natureza: é o egoísmo que o mata.

981 – Há para o estado futuro do Espírito uma diferença entre aquele que, em vida, teme a morte e aquele que a vê com indiferença e mesmo com alegria?

– A diferença pode ser muito grande. Entretanto, freqüentemente, ela se apaga diante das causas que dão esse temor ou esse desejo. Quer a tema, quer a deseje, pode-se estar movido por sentimentos muito diversos e são esses sentimentos que influem sobre o estado do Espírito. É evidente, por exemplo, que naquele que deseja a morte unicamente porque vê nela o termo de suas tribulações, é uma espécie de murmuração contra a Providência e contra as provas que deve suportar.