O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 419

1000 – Podemos nós, desde esta vida, resgatar nossas faltas?

– Sim, reparando-as. Mas não creiais resgatá-las por algumas privações pueris ou doando depois de vossa morte, quando não tereis mais necessidade de nada. Deus não tem em nenhuma conta um arrependimento estéril, sempre fácil, e que não custa senão a pena de se bater no peito. A perda de um pequeno dedo trabalhando, apaga mais faltas que o suplício da carne sofredora durante anos, sem outro objetivo que o bem de si mesmo. (726).

O mal não é reparado senão pelo bem, e a reparação não tem nenhum mérito, se não atinge o homem no seu orgulho ou nos seus interesses materiais.

De que lhe serve, para sua justificação, restituir depois da morte o bem mal adquirido, agora que se lhe torna inútil e que deles já se aproveitou?

De que lhe serve a privação de alguns prazeres fúteis e de algumas superfluidades, se o mal que ele fez a outro continue o mesmo?

De que lhe serve, enfim, se humilhar diante de Deus, se conserva seu orgulho diante dos homens? (720-721).

1001 – Não há nenhum mérito em assegurar, depois da morte, um emprego útil dos bens que possuímos?

– Nenhum mérito não é o termo; isso vale sempre mais que nada. Mas o mal é que aquele que não dá senão depois da morte, freqüentemente, é mais egoísta que generoso. Quer ter a honra do bem, sem ter-lhe o trabalho. Aquele que se priva, na sua vida, tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver os felizes que fez. Mas o egoísmo lá está e diz-lhe: O que dás suprimes dos teus gozos. E como o egoísmo fala mais alto que o desinteresse e a caridade, ele guarda, sob pretexto de suas necessidades e das necessidades da sua posição. Ah! lamentai aquele que não conhece o prazer de dar; este é verdadeiramente deserdado de uma das mais puras e mais suaves alegrias. Deus, submetendo-o à prova da fortuna,  tão  difícil  e  tão  perigosa para seu futuro, quis  lhe  dar  por  compensação a felicidade da generosidade da qual  ele  pode  gozar  desde  este mundo. (814).

1002 – O que deve fazer aquele que, no último momento