O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 42

nica; ela não tem existência própria e cessa com a vida; é o materialismo puro. Nesse sentido, e por comparação, dizem de um instrumento rachado que não produz mais som: que ele não tem alma. Segundo essa opinião, a alma seria um efeito e não uma causa.

Outros pensam que a alma é o princípio da inteligência, agente universal do qual cada ser absorve uma porção. Segundo eles, não haveria, por todo o Universo, senão uma só alma que distribui centelhas entre os diversos seres inteligentes durante a sua vida. Depois da morte, cada centelha retorna à fonte comum onde se confunde no todo, como os riachos e os rios retornam ao mar de onde saíram.

Esta opinião difere da precedente naquilo que, nesta hipótese, há em nós mais que a matéria e que resta alguma coisa depois da morte; mas é mais ou menos como se não restasse nada, uma vez que, não tendo mais individualidade, não teríamos mais consciência de nós mesmos. Nesta opinião, a alma universal seria Deus e cada ser uma porção da Divindade: é uma variedade do panteísmo.

Segundo outros, enfim, a alma é um ser moral, distinto, independente da matéria e que conserva sua individualidade depois da morte. Esta acepção é, sem contradita, a mais geral, porque, sob um nome ou sob outro, a idéia deste ser que sobrevive ao corpo se encontra no estado da crença instintiva, e independentemente de todo ensinamento, entre todos os povos, qualquer que seja o grau de sua civilização. Esta doutrina, segundo a qual a alma é a causa e não o efeito, é a dos espiritualistas.

Sem discutir o mérito dessas opiniões, e nelas não considerando senão o lado lingüístico da coisa, diremos que essas três aplicações da palavra alma constituem três idéias distintas que reclamam, cada uma, um termo diferente. Essa palavra, pois, tem uma tríplice acepção, e cada um tem razão em seu ponto de vista, na definição que dá; o erro é a língua não ter senão uma palavra para três idéias. Para evitar todo equívoco, precisar-se-ia restringir a acepção da palavra alma a uma dessas três idéias; a escolha é indiferente, tudo está em se entender, é um processo de convenção. Cremos mais lógico tomá-la em sua acepção mais vulgar; por isso chamamos ALMA ao ser imaterial e individual que reside em nós e sobrevive ao corpo.

Ainda que esse ser não existisse e não fosse senão um produto da imaginação, seria preciso assim mesmo um termo para designá-lo.

Na falta de uma palavra especial para cada uma das duas outras acepções, chamaremos:

Princípio vital, o princípio da vida material  e  orgânica,