O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 423

penas, eternidade dos castigos. Não sabeis, pois, que o que entendeis hoje por eternidade, os antigos não o entendiam como vós? Que o teólogo consulte as fontes, e como todos vós, descobrirá nelas que o texto hebreu não deu à palavra que os Gregos, os latinos e os modernos traduziram por penas sem fim, irremissíveis, a mesma significação. Eternidade dos castigos corresponde à eternidade do mal. Sim, tanto que o mal exista entre os homens, os castigos subsistirão; é no sentido relativo que importa interpretar os textos sagrados. A eternidade das penas, portanto, não é senão relativa e não absoluta. Dia virá em que todos os homens se revestirão, pelo arrependimento, com a túnica da inocência e nesse dia não mais haverá gemidos e ranger de dentes. Vossa razão humana é limitada, é verdade, mas tal qual é, é um presente de Deus, e com essa ajuda da razão, não há um só homem de boa fé que compreenda de outro modo a eternidade dos castigos. A eternidade dos castigos! Como! seria preciso, pois, admitir que o mal fosse eterno. Só Deus é eterno e não poderia criar o mal eterno; sem isso seria preciso arrancar-lhe o mais sublime dos seus atributos: o soberano poder, porque não é soberanamente poderoso quem pode criar um elemento destruidor de suas obras. Humanidade! Humanidade! não mergulhes, pois, mais teus melancólicos olhares nas profundezas da Terra para aí procurar os castigos; chora, espera, expia e refugia-te no pensamento de um Deus intimamente bom, absolutamente poderoso, essencialmente justo.

PLATÃO

Gravitar para a unidade divina, tal é o destino da Humanidade. Para alcançá-lo, três coisas são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois bem! digo-vos, em verdade, mentis, a esses princípios fundamentais comprometendo a idéia de Deus pelo exagero de sua severidade; duplamente a comprometeis, deixando penetrar no Espírito da criatura a idéia de que há nela mais de clemência, de mansuetude, de amor e de verdadeira justiça, do que não atribuís ao ser infinito. Destruís mesmo a idéia do inferno, tornando-o ridículo e inadmissível às vossas crenças, como o é ao vosso coração o hediondo espetáculo dos carrascos, das fogueiras e das torturas da Idade Média. Pois  que!  É quando  a  era  das  represálias   cegas  já   foi  para  sempre  banida das legislações humanas, que  esperais  mantê-la  no ideal? Oh! crede-me, crede-me, irmãos em Deus e em Jesus