O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 424

Cristo, crede-me, ou resignai-vos em deixar perecer entre vossas mãos todos os vossos dogmas antes de os deixar variar, ou bem vivificai-os abrindo-os aos benfazejos eflúvios que os Bons vertem-lhe nesse momento. A  idéia  do inferno com suas fornalhas ardentes, com suas caldeiras ferventes, pôde ser tolerada, quer dizer, perdoável, em um século de ferro: mas no décimo-nono, isso  não é mais que  um vão fantasma próprio, quando muito, para assustar as criancinhas e no qual as crianças não crêem mais quando são grandes. Persistindo nessa mitologia assustadora, engendrais a incredulidade, mãe de toda a desorganização social; eis porque tremo vendo toda uma ordem social abalar e desabar sobre sua base   falsa  de  sanção  penal.  Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia  da  luz,  ao trabalho, portanto! não para manter velhas fábulas e, de hoje em diante, sem  crédito, mas  para reavivar,  revificar  a verdadeira  sanção penal, sob formas   relacionadas com os vossos costumes, vossos sentimentos e as luzes de vossa época.

Que é, com efeito, o culpado? É aquele que por um desvio, por um falso movimento da alma, se distancia do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo.

Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma soma de dores necessária para o desgostar de sua disformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que excita a alma, pela amargura, a se curvar sobre si mesma e a retornar para o caminho da salvação. O objetivo do castigo não é outro senão a reabilitação, a libertação. Querer que o castigo seja eterno, por  uma  falta  que  não é eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.

Oh! digo-vos em verdade, cessai, cessai  de  colocar em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura; isso seria  aí criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, a amortização gradual dos castigos e das penas pela transmigração, e consagrareis com a razão unida ao sentimento, a unidade divina.

PAULO, APÓSTOLO