O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 425

Vê-se excitar o homem ao bem, e o afastar do mal, pelo engodo de recompensas e o medo de castigos; mas se esses castigos são apresentados de maneira a que a razão se recusa a acreditar neles, não terão sobre o homem nenhuma influência; longe disso, ele rejeitará tudo: a forma e o fundo. Que se lhe apresente, ao contrário, o futuro de maneira lógica, e então ele não o rejeitará. O Espiritismo lhe dá essa explicação.

A doutrina da eternidade das penas, no sentido absoluto, faz do ser supremo um Deus implacável. Seria lógico dizer de um soberano que ele é muito bom, muito benevolente, muito indulgente, que não quer senão a felicidade dos que o cercam, mas que, ao mesmo tempo, é ciumento, vingativo, inflexível no seu rigor, e que pune com o último suplício as três quartas partes de seus indivíduos por uma ofensa ou uma infração às suas leis, aqueles que faliram por não as ter conhecido? Não seria isso uma contradição? Ora, Deus pode ser menos bom do que seria um homem?

Outra contradição se apresenta aqui. Visto que Deus tudo sabe, sabia, pois, criando uma alma, que ela faliria; ela foi, portanto, desde sua formação, votada à infelicidade eterna: isso é possível, é racional? Com a doutrina das penas relativas tudo está justificado. Deus sabia, sem dúvida, que ela faliria, mas lhe dá os meios de se esclarecer por sua própria experiência, por suas próprias faltas. É necessário que ela expie seus erros para ser melhor consolidada no bem, mas a porta da esperança não lhe é fechada para sempre, e Deus faz depender o momento de sua libertação dos esforços que faz para o atingir. Eis o que todos podem compreender, o que a lógica, a mais meticulosa, pode admitir. Se as penas futuras tivessem sido apresentadas sob este ponto de vista, haveria bem menos céticos.

A palavra eterno é freqüentemente empregada, na linguagem vulgar, como figura, para designar uma coisa de longa duração, e da qual não se prevê o termo, embora se saiba muito bem que esse termo existe.

Dizemos, por exemplo, os gelos eternos das altas montanhas, dos pólos, embora saibamos de um lado que o mundo físico pode ter um fim, e, de outra parte que o estado dessas regiões pode mudar pelo deslocamento natural do eixo ou por um cataclisma. A palavra eterno, nesse caso, não quer, pois, dizer perpétuo até o infinito. Quando sofremos uma longa moléstia, dizemos que nosso mal é eterno; que há, pois, de espantar em que os Espíritos que sofrem depois de anos, séculos, de milhares de anos mesmo, o digam igualmente? Não olvidemos, sobretudo, que sua inferioridade, não lhes permitindo ver o extremo do caminho, crêem sofrer sempre, o que é para eles uma punição.

De resto, a doutrina do fogo material, das fornalhas e das torturas emprestadas ao Tártaro do paganismo, está hoje completamente abandonada pela alta teologia,  e  não é mais senão  nas