O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CAP. II - PENAS E GOZOS FUTUROS 427

confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis. Mas como é chegado o tempo de não mais empregar a linguagem figurada, eles se exprimem sem alegoria e dão às coisas um sentido claro e preciso, que não possa estar sujeito a nenhuma interpretação falsa. Eis porque, dentro de algum tempo, tereis mais pessoas sinceramente religiosas e crentes que as que não tendes hoje.

SÃO LUÍS

A Ciência, com efeito, demonstra a impossibilidade da ressurreição segundo a idéia vulgar . Se os restos do corpo humano permanecessem homogêneos, fossem dispersos e reduzidos a pó, se conceberia ainda a reunião em um momento dado; mas as coisas não se passam assim. O corpo é formado de elementos diversos: oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, etc.

Pela decomposição, esses elementos se dispersam para servir na formação de novos corpos, de tal sorte que a mesma molécula, de carbono por exemplo, entrará na composição de vários milhares de corpos diferentes (não falamos senão de corpos humanos sem contar os dos animais); que tal indivíduo, talvez tenha no seu corpo moléculas que pertenceram aos homens das primeiras idades; que essas mesmas moléculas orgânicas que absorveis na vossa alimentação provêm, talvez, do corpo de tal indivíduo  que conhecestes, e  assim   por  diante.  A matéria, sendo em quantidade definida e suas transformações em quantidades  indefinidas,  como cada um desses corpos  poderia se reconstruir dos mesmos elementos? Há nisso uma impossibilidade material. Não se pode, pois, racionalmente, admitir a ressurreição da carne senão como uma figura simbolizando o fenômeno da reencarnação e, nesse caso, não há nada que  choque a razão, nada que esteja em contradição com os dados da Ciência.

É verdade  que,   segundo  o  dogma,  essa  ressurreição não  deve  ter   lugar  senão   no   fim   dos   tempos,   enquanto que, segundo a Doutrina Espírita, ela ocorre todos  os  dias.  Mas não há ainda nesse quadro do  julgamento  final  uma  grande  e bela  figura   que esconde,  sob  o  véu da alegoria, uma dessas verdades imutáveis que não encontrará mais céticos quando for restabelecida em sua verdadeira significação? Que se queira bem meditar a teoria espírita sobre o futuro das almas e sua sorte depois das diferentes provas que elas devem suportar, e se verá que, à exceção da simultaneidade, o julgamento que condena ou que as absolve não é uma ficção, assim como pensam os incrédulos. Observemos ainda que ela é a conseqüência natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto que, segundo a doutrina do juízo final,  a  Terra  é  considerada  o  único  mundo habitado.