O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 43

qualquer que lhe seja a fonte, e que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas até o homem. A vida podendo existir, abstração feita da faculdade de pensar, o princípio vital é uma coisa distinta e independente. A palavra vitalidade não dá a mesma idéia. Para alguns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em certas circunstâncias dadas. Segundo outros, e é a idéia mais comum, ele reside num fluido especial, universalmente espalhado e do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como vemos os corpos inertes absorverem a luz. Esse seria, então, o fluido vital que segundo certas opiniões, não seria outro que o fluido elétrico animalizado, designado também sob os nomes de fluido magnético, fluido nervoso, etc.

Seja como for, há um fato que não se poderia contestar, porque é resultado da observação, e é que os seres orgânicos têm em si uma força íntima que produz o fenômeno da vida, tanto que essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e que ela é independente da inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; enfim que, entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento, há uma dotada de um senso moral especial que lhe dá uma incontestável superioridade sobre as outras e que é a espécie humana.

Concebe-se que, com um significado múltiplo, a alma não exclui nem o materialismo, nem o panteísmo. O próprio espiritualista pode muito bem entender a alma segundo uma ou outra das duas primeiras definições, sem prejuízo do ser imaterial distinto ao qual, então, ele dará um nome qualquer. Assim, essa palavra não representa uma opinião: é um Proteu que cada um acomoda à sua maneira; daí a fonte de tantas disputas intermináveis.

Evitar-se-ia igualmente a confusão, servindo-se da palavra alma nos três casos, juntando-lhe um qualificativo que especificasse o ponto de vista sob o qual a consideramos ou a aplicação que dela se faz. Seria, então, uma palavra genérica, representando ao mesmo tempo o princípio da vida material, da inteligência e do senso moral, e que se distinguiria por um atributo, como o gás, por exemplo, que se distingue juntando-lhe as palavras hidrogênio, oxigênio ou azoto. Poder-se-ia então dizer, e talvez fosse o melhor, a alma vital para o princípio da vida material, a alma intelectual para o princípio da inteligência e a alma espírita para o princípio da nossa individualidade depois da morte. Como se vê, tudo isso é uma questão de palavras, mas uma questão muito importante para se entender. Segundo isso, a alma vital seria comum a todos os seres orgânicos:  plantas,  animais  e  homens;  a  alma  inte-