O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CONCLUSÃO 441

seus atos ou de suas tendências. O Espiritismo, tomado a sério, os embaraçaria. Eles não rejeitam nem aprovam: preferem fechar os olhos. Os primeiros são solicitados pelo orgulho e pela presunção; os segundos pela ambição, e os terceiros pelo egoísmo. Concebe-se que essas causas de oposição, não tendo nada de sólidas, devem desaparecer com o tempo, porque em vão procuraríamos uma quarta classe de antagonistas, a que se apoiasse sobre provas contrárias patentes e atestando um estudo consciencioso e laborioso da questão. Todos não opõem senão a negação, nenhum traz demonsração séria e irrefutável.

Seria presumir demasiado da natureza humana crer que ela pudesse se transformar subitamente pelas idéias espíritas. Sua ação não é, seguramente, a mesma, nem do mesmo grau, entre todos aqueles que as professam; mas qualquer que seja o resultado, mesmo fraco, é sempre um progresso, mesmo seja apenas o de dar a prova da existência de um mundo extra-corpóreo, o que implica na negação das doutrinas materialistas. Isto é a conseqüência mesma da observação dos fatos. Mas entre os que compreendem o Espiritismo filosófico e nele vêem outra coisa além dos fenômenos mais ou menos curiosos, há outros efeitos. O primeiro, e o mais geral, é desenvolver o sentimento religioso naquele mesmo que, sem ser materialista, não tem senão indiferença pelas coisas espirituais. Disso resulta nele o desprezo pela morte; não dizemos o desejo da morte, longe disso, porque o espírita defenderá sua vida como qualquer outro, mas uma indiferença que faz aceitar, sem murmurar, e sem desgosto, uma morte inevitável, como uma coisa antes feliz  que terrível, pela certeza do estado que lhe sobrevirá. O segundo efeito, quase tão geral como o primeiro, é a resignação nas  vicissitudes  da  vida.  O Espiritismo faz ver as coisas de tão alto, que a vida terrena, perdendo três quartas partes de  sua  importância,  não aflige tanto com as  atribulações  que a acompanham:  daí mais coragem nas aflições, mais moderação  nos  desejos;  daí também o afastamento do pensamento de abreviar seus dias, porque a ciência espírita ensina que, pelo suicídio, se perde sempre o que se queria ganhar. A certeza de um futuro que depende de nós mesmos tornar feliz, a possibilidade de estabelecer contato com os seres que nos são caros, oferecem ao espírita uma suprema consolação. Seu horizonte  aumenta ao infinito pelo espetáculo incessante  que  ele  tem  da  vida de além-túmulo, da qual pode sondar as misteriosas