O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO IV - CONCLUSÃO 442

profundezas. O terceiro efeito é excitar à indulgência pelas faltas alheias. Mas é necessário dizê-lo, o princípio egoísta, e tudo o que dele decorre, é o que há de mais tenaz no homem e, por conseguinte, o mais difícil de se desarraigar. Fazem-se sacrifícios voluntários desde que nada custem e, sobretudo, de nada privem. O dinheiro tem ainda, para a maioria, um atrativo irresistível, e bem poucos compreendem a palavra supérfluo, quando se trata de sua pessoa. Por isso, a abnegação da personalidade é o mais eminente sinal de progresso.

VIII

Os Espíritos, dizem certas pessoas, nos ensinam uma moral nova, alguma coisa superior à do Cristo? Se essa moral não é outra senão a do Evangelho, por que o Espiritismo? Esse raciocínio assemelha-se singularmente ao do califa Omar falando da biblioteca de Alexandria: "Se ela não contém, disse, senão o que há no Alcorão, é inútil, portanto, é preciso queimá-la; se ela encerra outra coisa, é má, portanto, é preciso ainda queimá-la". Não, o Espiritismo não encerra uma moral diferente da de Jesus; mas perguntaremos, por nossa vez, se antes de Cristo os homens não tinham a lei dada por Deus a Moisés? Sua doutrina não se encontra no Decálogo? Dir-se-á por isso que a moral de Jesus era inútil? Perguntaremos ainda àqueles que negam a utilidade da moral espírita, por que a do Cristo é tão pouco praticada e por que estes mesmos que lhe proclamam, a justo título, a sublimidade, são os primeiros a violar a primeira de suas leis: a caridade universal? Os Espíritos vêm não somente confirmá-la, mas nos mostram sua utilidade prática. Eles tornam inteligíveis e patentes, verdades que não haviam sido ensinadas senão sob a forma alegórica; e ao lado da moral, vêm definir os problemas mais abstratos da psicologia.

Jesus veio mostrar aos homens o caminho do verdadeiro bem. Por que Deus, que o havia enviado para lembrar sua lei esquecida, não enviaria hoje os Espíritos para a lembrar-lhes de novo e com mais precisão, quando a esquecem para tudo sacrificar ao orgulho e à cupidez? Quem ousaria pôr limites ao poder de Deus e traçar-lhe seus caminhos? Quem diz que, como afirmam os Espíritos, os tempos preditos não estão cumpridos, e que não atingimos aqueles em que as verdades mal compreendidas ou falsamente interpretadas devem ser ostensivamente reveladas ao