O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 45

cido, fosse a causa desse movimento. A reunião de várias pessoas, aumentando a força de ação, parecia apoiar essa teoria, porque se poderia considerar esse conjunto como uma pilha múltipla da qual a força está na razão do número de elementos.

O movimento circular não tinha nada de extraordinário. Está na Natureza; todos os astros se movem circularmente. Poderíamos, pois, ter em ponto pequeno um reflexo do movimento geral do Universo, ou, melhor dizendo, uma causa até então desconhecida poderia produzir, acidentalmente, com pequenos objetos e em dadas circunstâncias, uma corrente análoga à que arrasta os mundos.

Mas o movimento não era sempre circular. Freqüentemente, era brusco, desordenado, o objeto violentamente sacudido, tombado, levado numa direção qualquer, e, contrariamente a todas as leis da estática, levantado da terra e mantido no espaço. Nada ainda, nesses fatos, que não se possa explicar pela força de um agente físico invisível. Não vemos a eletricidade derrubar os edifícios, destruir as árvores, lançar ao longe os corpos mais pesados, atraí-los ou repeli-los?

Os ruídos insólitos, as pancadas, supondo que não fossem um dos efeitos ordinários da dilatação da madeira, ou de outra causa acidental, poderiam, ainda, muito bem ser produzidos pela acumulação do fluido oculto: a eletricidade não produz os mais violentos ruídos?

Até  aí, como se  vê,   tudo  pode  entrar  no  domínio  dos fatos   puramente físicos e fisiológicos.   Sem   sair desse círculo de  idéias,  havia  aí  matéria  de  estudos   sérios   e   dignos  de fixar a atenção dos sábios. Por que  assim  não  ocorreu?  É   penoso dizê-lo, mas isso se prende a causas que  provam  entre mil fatos   semelhantes, a leviandade   do espírito humano. Primeiro, a  vulgaridade  do  objeto  principal  que   serviu   de  base   às primeiras   experimentações a isso não   foi   estranha. Que influência  uma   palavra,  freqüentemente,   não   tem  tido  sobre as coisas mais graves? Sem considerar que o movimento poderia ser imprimido a um objeto qualquer, a idéia das mesas prevaleceu,  sem dúvida,  porque esse era o  objeto  mais  cômodo e se assenta  mais  naturalmente  ao  redor  de  uma mesa  que ao redor de outro móvel. Ora, os homens superiores  são,  algumas vezes, tão pueris  que não  seria  nada  impossível  que  certos espíritos de  elite tenham   acreditado  abaixo   deles   se  ocupar daquilo  que   se tinha  convencionado chamar a dança das mesas. É mesmo provável que se o fenômeno observado por Galvani o tivesse sido por homens vulgares e  ficasse  caracterizado por um nome burlesco, estaria ainda relegado ao lado da varinha mágica.