O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 46

Qual é, com efeito, o sábio que não teria acreditado transigir em se ocupando da dança das rãs?

Entretanto, alguns, bastante modestos para convir que a Natureza poderia bem não ter dito sua última palavra para eles, quiseram ver, para descarga de sua consciência. Mas ocorreu que o fenômeno não respondeu sempre à sua espera, e do fato de que ele não se produziu constantemente à sua vontade e segundo seu método de experimentação, concluíram pela negativa.

Malgrado sua sentença, as mesas, pois há mesas, elas continuam a girar, e podemos dizer com Galileu: e, contudo, elas se movem!

Diremos mais: "é que os fatos se multiplicaram de tal forma que eles têm hoje direito de cidadania, que não se trata mais senão de encontrar-lhes uma explicação racional". Pode-se objetar contra a realidade do fenômeno pelo fato de ele não se produzir de maneira sempre idêntica, segundo a vontade e as exigências do observador?

Porque os fenômenos de eletricidade e de química não estão subordinados a certas condições, deve-se negá-los porque não se produzem fora dessas condições? Portanto, não há nada de espantoso que o fenômeno do movimento dos objetos pelo fluido humano tenha também suas condições de ser e cesse de se produzir quando o observador, se colocando em seu ponto de vista, pretende fazê-lo marchar ao sabor de seu capricho ou sujeitá-lo às leis dos fenômenos conhecidos, sem considerar que para fatos novos pode e deve ter leis novas? Ora, para conhecer essas leis, é preciso estudar as circunstâncias nas quais esses fatos se produzem, e esse estudo não pode ser senão o fruto de uma observação firme, atenta e, freqüentemente, durável.

Mas, objetam certas pessoas, com freqüência há fraude evidente.

Mas lhes perguntaremos primeiro se elas estão bem certas que havia fraude, e se não tomaram por fraudes os efeitos dos quais elas não entendiam, mais ou menos como o camponês que tomou um sábio professor de física, fazendo experiências, por um destro escamoteador.

Supondo mesmo que isso tenha podido ocorrer algumas vezes, seria uma razão para negar o fato? É preciso negar a física porque há prestidigitadores que se intitulam físicos? É preciso, aliás, ter em conta o caráter das pessoas e do interesse que elas poderiam ter em enganar. Isso seria, pois, um gracejo?

Pode-se bem se divertir um instante, mas um gracejo indefinidamente prolongado seria tão fastidioso para o mistificador como para o mistificado. De resto, numa mistificação que se propaga de um extremo a outro do mundo, e entre pessoas das mais sérias, das