O LIVRO DOS MÉDIUNS - PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO I 465

corpo, uma  vez que separada dele não lhe tem mais as propriedades;   2º,  que  goza   da   consciência   de  si mesma, uma vez que se lhe atribui  a  alegria  ou   o sofrimento; de outro  modo seria  um ser   inerte,   e   o  mesmo   valeria   para nós não tê-la. Isto admitido, a alma vai para  alguma parte; em  que se torna ela e onde vai? Segundo  a  crença  comum ela  vai  para  o  céu ou para o inferno;   mas  onde  estão o céu  e o inferno? Dizia-se antigamente  que  o  céu  estava em  cima e  o  inferno  embaixo; mas  o que  é  o  alto  e  o baixo no  Universo,  desde  que  se conhece  a  redondeza da Terra, o   movimento   dos   astros que  faz  com que o que é o alto   em um  momento   dado torna-se  o   baixo  em   doze horas,   o   infinito  do  espaço no  qual  o  olhar  mergulha  em distâncias incomensuráveis? É  verdade  que, por   lugares baixos,  se  entende  também as profundezas  da Terra;   mas em  que  se  tornaram  essas profundezas  desde  que  foram pesquisadas   pela Geologia? Em  que  se  tornaram,  igualmente,  essas  esferas concêntricas  chamadas  céu   de fogo,   céu   de  estrelas, desde  que se  sabe  que  a  Terra não  é  o  centro dos mundos,  que  nosso  Sol,  ele  mesmo, não  é  senão  um dos   milhões  de sóis que brilham no espaço,  sendo  cada um o centro de um  turbilhão planetário? Em  que  se   tornou a   importância  da  Terra, perdida nessa imensidade? Por qual  privilégio  injustificável  esse  grão  de areia   imperceptível,  que  não se   distingue nem  por  seu volume   nem  por sua  posição, nem por um papel particular, seria o único povoado por seres racionais? A razão se recusa  a  admitir  essa   inutilidade do Infinito, e  tudo  nos diz que esses mundos são habitados. Se   são  povoados, eles fornecem, pois,  seu  contingente ao mundo das  almas; mas,  ainda  uma  vez,  em  que se tornam essas almas,  já que  a  Astronomia  e   a  Geologia   destruíram   as   moradas que  lhes eram assinaladas, e  sobretudo  depois que a teoria   tão  racional  da  pluralidade  dos  mundos as multiplicou ao infinito? A  doutrina da  localização  das  almas, não podendo  estar de  acordo   com os   dados  da  ciência,  uma outra  doutrina mais lógica lhes assinala   por domínio,  não um  lugar determinado  e circunscrito, mas  o  espaço universal:  é todo um mundo invisível no  meio  do   qual  vivemos, que  nos  rodeia   e  nos  acotovela  sem  cessar.  Há nisso uma   impossibilidade,  alguma   coisa  que  repugne  à