O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 47

mais honoráveis e das mais esclarecidas, haveria alguma coisa ao menos tão extraordinária quanto o próprio fenômeno.

IV

Se os fenômenos que nos ocupam fossem limitados ao movimento dos objetos, teriam ficado, como o dissemos, no domínio das ciências físicas. Mas não foi assim: cabia-lhes nos colocar sobre o caminho de fatos de uma ordem estranha. Acreditou-se descobrir, não sabemos por qual iniciativa, que o impulso dado aos objetos não era somente o produto de uma força mecânica cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa inteligente. Este caminho, uma vez aberto, era um campo todo novo de observações; era o véu levantado sobre muitos mistérios. Há nisso, com efeito, uma força inteligente? Tal é a questão. Se essa força existe, qual é ela, qual a sua natureza, a sua origem? Está acima da Humanidade? Tais são as outras questões que decorrem da primeira.

As primeiras manifestações inteligentes ocorreram por meio de mesas se levantando e batendo, com um pé, um número determinado de pancadas e respondendo desse modo, por sim e por não, segundo a convenção, a uma questão posta. Até aqui, nada que convencesse seguramente os céticos, porque se poderia crer num efeito do acaso. Obtiveram-se depois respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: o objeto móvel, batendo um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava assim a formular palavras e frases que respondiam às questões propostas. A precisão das respostas, sua correlação com a pergunta, aumentaram o espanto. O ser misterioso, que assim respondia, interrogado sobre a sua natureza, declarou que era um Espírito ou gênio, se deu um nome e forneceu diversas informações a seu respeito. Há aqui uma circunstância muito importante a notar.

Ninguém imaginou os Espíritos como um meio de explicar os fenômenos; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Freqüentemente, fazem-se nas ciências exatas hipóteses para ter uma base de raciocínio; ora, isso não ocorreu neste caso.

O meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e isto é ainda uma circunstância digna de nota, indicou um outro. É um desses seres invisíveis que dá o conselho de adaptar um lápis a um cesto ou a um outro objeto. Esse cesto, pousado sobre uma folha de papel, se pôs em movimento pela mesma força oculta que faz mover as mesas. Mas em lugar de um simples movimento regular, o lápis traça, por ele mesmo, caracteres formando palavras, frases e discursos inteiros de várias páginas, tratando das mais