O LIVRO DOS MÉDIUNS - PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO III 483

exceção,  mas,  nesse caso, haverá, provavelmente, uma outra causa  que  o  torne  menos refratário.

20. Entre os materialistas é preciso distinguir duas classes:    na  primeira  alinhamos  aqueles  que  o  são por sistema;  entre  eles  não  há a  dúvida,  mas  a negação absoluta,   raciocinada  à  sua  maneira;  aos  seus   olhos,  o homem não é senão uma máquina que vai enquanto está montada,  que  se  desarranja,  e  da  qual,  depois  da  morte, não  resta  senão  a  carcaça.   Seu número, felizmente, é muito  restrito  e  não  constitui  em  nenhuma  parte uma escola  altamente   reconhecida;   não  temos  necessidade em  insistir  sobre  os  deploráveis  efeitos  que teriam para a  ordem   social   a    vulgarização   de   semelhante   doutrina;  nós nos  entendemos  suficientemente  sobre   esse assunto  em   O  Livro  dos  Espíritos   (nº  147  e  Conclusão, § III).

Quando  dissemos  que  a  dúvida  cessa nos incrédulos em presença de uma explicação racional, é preciso disso excetuar os materialistas, pelo menos os que negam todo poder e todo princípio inteligente fora da matéria; a maioria  se  obstina   em  sua  opinião  por orgulho, e crêem seu amor-próprio obrigado a nela persistir; e persistem a despeito  de  todas  provas   contrárias,  porque não querem se  rebaixar. Com  essas  pessoas  não  há  nada  a  fazer; não é preciso mesmo se deixar levar pelas falsas aparências de sinceridade  dos que dizem: faça-me ver e crerei.  Há  os  que  são  mais francos e dizem claramente: veria e não creria.

21. A segunda  classe  de materialistas, e a mais numerosa,  porque o  verdadeiro  materialismo  é um sentimento  antinatural,  compreende  aqueles  que  o são por indiferença e, pode-se dizer, por falta de melhor; não o são de proposito  deliberado,  e  não  pedem mais do que crer, porque a incerteza  é  para  eles  um  tormento. Há neles uma vaga aspiração  com  relação  ao  futuro;  mas esse  futuro  lhes foi apresentado  sob  cores  que  sua razão  não  pode aceitar; daí a  dúvida e,  como  conseqüência da  dúvida, a  incredulidade.  Neles  a incredulidade  não é, pois, um  sistema; apresentai-lhes  também alguma coisa  racional  e  a  aceitam  com