O LIVRO DOS MÉDIUNS - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO I 514

mais tem de surpreendente, e entra na ordem dos fatos naturais.

53. A idéia que se forma dos Espíritos torna, à primeira vista, o fenômeno incompreensível. Estas manifestações não podem ocorrer senão pela ação do Espírito sobre a matéria; é por isso que, aqueles que crêem que o Espírito é a ausência de toda a matéria, perguntam-se com alguma aparência de razão, como pode ele agir materialmente. Ora, aí está o erro; porque o Espírito não é uma abstração, é um ser definido, limitado e circunscrito. O Espírito encarnado no corpo constitui a alma; quando o deixa, na morte, não sai despojado de todo o envoltório. Todos nos dizem que conservam a forma humana e, com efeito, quando nos aparecem é sob aquela que nós os conhecemos.

Observemo-los atentamente no momento em que acabam de deixar a vida; estão num estado de perturbação; tudo está confuso ao seu redor; eles vêem seu corpo, são ou mutilado conforme o gênero de morte; de outra parte, se vêem e se sentem vivos; alguma coisa lhes diz que esse corpo é o seu e não compreendem porque estão separados dele. Continuam a se ver sob sua forma primitiva, e esta visão produz, em alguns, durante um certo tempo, uma singular ilusão: a de se crerem ainda vivos; necessitam da experiência do seu novo estado para se convencerem da realidade. Dissipado esse primeiro momento de perturbação, o corpo se lhes  torna uma vestimenta velha da qual estão despojados  e não têm saudade; sentem-se mais leves e como desembaraçados de um fardo; não experimentam mais dores físicas e são muito felizes de poderem se elevar, percorrer o espaço,   assim como, em suas vidas, o fizeram muitas vezes durante seus sonhos (1). Entretanto, apesar da ausên-


(1) Se se recordar de tudo o que dissemos em O Livro dos Espíritos sobre os sonhos e o estado do Espírito durante o sono (nº 400 a 418), se conceberá que estes sonhos, que quase todo mundo teve, nos quais se vê transportado através do espaço, e como voando, não são mais do que uma lembrança da sensação experimentada pelo Espírito, quando, durante o sono, havia momentaneamente deixado seu corpo material, não levando consigo senão seu corpo fluídico, aquele que conserva depois da morte. Estes sonhos podem, pois, nos dar uma idéia do estado do Espírito quando estiver desembaraçado dos entraves que o retêm ao solo.