O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 56

matemático, ou um grande anatomista. O anatomista, dissecando o corpo humano, procura a alma, e porque não a encontra sob o seu escalpelo, como nele encontra um nervo, ou porque não a vê fugir como um gás, conclui daí que ela não existe, porque ele se coloca em ponto de vista exclusivamente material; segue-se que ele tenha razão contra a opinião universal? Não. Vede, pois, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência.

Quando as crenças espíritas forem vulgarizadas, quando forem aceitas pelas massas, e, a julgar pela rapidez com que elas se propagam, esse tempo não estaria longe, ocorrerá com ela o que ocorre com todas as idéias novas que encontraram oposição: os sábios se renderão à evidência.

Eles a atingirão individualmente pela força das  coisas.  Até lá, é intempestivo desviá-los dos seus trabalhos especiais, para os constranger a se ocuparem de uma coisa estranha, que não está nem nas suas atribuições, nem em seu programa. À espera disso, aqueles que, sem um estudo prévio e aprofundado da matéria, se pronunciam pela negativa e zombam de quem não lhes colhe a opinião, esquecem que o mesmo ocorreu na maioria das grandes descobertas que honram a Humanidade. Eles se expõem a ver seus nomes aumentarem a lista dos ilustres proscritores das idéias novas, e inscrito ao lado dos membros da douta assembléia que, em 1752, acolheram com uma imensa explosão de riso o relatório de Franklin sobre os pára-raios, julgando-o indigno de figurar ao lado das comunicações que lhe eram endereçadas; e desse outro que ocasionou perder a França o benefício da iniciativa da marinha a vapor, declarando o sistema de Fulton um sonho impraticável; e essas eram questões de sua alçada. Se, pois, essas assembléias que contavam em seu seio com a elite dos sábios do mundo, não tiveram senão o escárnio e o sarcasmo por idéias que não compreendiam, e que alguns anos mais tarde deveriam revolucionar a Ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão estranha aos seus trabalhos obtenha mais favor?

Esses erros de alguns, lamentáveis por sua memória, não poderiam tirar-lhes os títulos que, por outras coisas, adquiriram a nossa estima. Mas é necessário  um diploma oficial para ter bom senso e não se contam fora das poltronas acadêmicas senão tolos e imbecis?

Que se analisem os adeptos da Doutrina Espírita  e se verá se nela não se encontram senão ignorantes, e se o número imenso de homens de mérito que a abraçaram permite se a relegue ao nível das crenças vulgares. O caráter e o saber desses homens valem bem o que se disse: uma vez que eles afirmam, é preciso ao menos que haja alguma coisa.