O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 57

Repetimos ainda que se os fatos que nos ocupam se encerrassem no movimento mecânico dos corpos, a procura da causa física desse fenômeno entraria no domínio da Ciência. Mas, desde que se trata de uma manifestação fora das leis da Humanidade, ela escapa da competência da ciência material, porque ela não pode se exprimir nem por algarismos nem pela força mecânica. Quando surge um fato novo, que não compete a nenhuma ciência conhecida, o sábio, para estudá-lo, deve fazer abstração de sua ciência e dizer-se que é para ele um estudo novo, que não se pode fazer com idéias preconcebidas.

O homem que considera a sua razão infalível está bem perto do erro; mesmo os que têm as idéias mais falsas se apóiam sobre a sua razão e é em virtude disso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, faziam todo apelo a esse julgamento para as rejeitar.

Ao que se chama razão, freqüentemente, não é senão orgulho disfarçado, e quem quer que se creia infalível se coloca como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, àqueles que são bastante sábios para duvidar daquilo que não viram, e que, julgando o futuro pelo passado, não creiam que o homem tenha alcançado seu apogeu, nem que a Natureza tenha virado para ele a última página de seu livro.

VIII

Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, tal como a Doutrina Espírita, que nos lança de repente numa ordem de coisas tão novas e tão grandes, não pode ser feito com resultado senão por homens sérios, perseverantes, isentos de prevenções e animados de uma firme e sincera vontade de atingir um resultado. Não poderíamos dar essa qualificação àqueles que julgam, a priori, levianamente e sem ter visto tudo; que não dão aos seus estudos nem a continuidade, nem a regularidade, nem o recolhimento necessários; saberíamos menos ainda dá-la a certas pessoas que, para não faltar à sua reputação de pessoas de espírito, se empenham em procurar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras, ou julgadas tais, por pessoas cujo saber, caráter e convicção dão direito ao respeito de quem se vanglorie de educado. Portanto, aqueles que não julgam os fatos dignos deles e da sua atenção, que se abstenham; ninguém sonha violentar suas crenças, mas que queiram, pois, respeitar a dos outros.

O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. Deve-se admirar de não se obter, freqüentemente, nenhuma resposta sensata  a questões, graves por si mesmas, quando são feitas ao acaso e à queima-roupa, no meio de uma multidão de