O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 63

mesma cada vez que o mesmo Espírito se apresenta; tem-se constatado muitas vezes que, para as pessoas mortas há pouco tempo, essa escrita tem uma semelhança marcante com a da pessoa em sua vida; têm-se visto assinaturas de uma exatidão perfeita. Estamos, de resto, longe de dar esse fato como uma regra e, sobretudo, como constante; mencionamo-lo como uma coisa digna de nota.

Só os Espíritos que atingiram um certo grau de depuração estão libertos de toda influência corporal; mas, quando não estão completamente desmaterializados (é a expressão da qual se servem), eles conservam a maioria das idéias, das tendências e mesmo das manias que tinham sobre a Terra, e é ainda esse um meio de reconhecimento; mas ele se encontra sobretudo numa multidão de fatos, de detalhes, que só podem ser revelados por uma observação atenta e firme. Vêem-se escritores discutir suas próprias obras ou doutrina, aprová-las ou condenarem certas partes; outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco conhecidas de sua vida, ou de sua morte, coisas, enfim, que são todas ao menos provas morais de identidade, as únicas que se podem invocar tratando-se de coisas abstratas.

Se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que não o seja em outros, e se não há, para as pessoas cuja morte é mais antiga, os mesmos meios de controle, se tem sempre o da linguagem e do caráter; porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem não falará como o de um homem perverso ou debochado. Quanto aos Espíritos que se enfeitam com nomes respeitáveis, eles se traem pela sua linguagem e suas máximas; aquele que se dissesse Fénelon, por exemplo, e que ofendesse, não fosse senão acidentalmente, o bom senso e a moral, mostraria, por isso, a fraude. Se, ao contrário, os pensamentos que ele exprime são sempre puros, sem contradição e constantemente à altura do caráter de Fénelon, não há motivos para duvidar da sua identidade; de outro modo seria preciso supor que um Espírito que não prega senão o bem, pode conscientemente empregar a mentira, e isso sem utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter, e animados dos mesmos sentimentos, se reúnem em grupos e famílias; ora, o número de Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecer a todos; a maioria não tem mesmo nome para nós.

Um Espírito da categoria de Fénelon pode, pois, vir em seu lugar, freqüentemente, mesmo enviado por ele como mandatário; ele se apresenta sob o seu nome, porque lhe é idêntico e pode subs-