O LIVRO DOS MÉDIUNS - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO XIV 635

uma causa estranha; também os meios terapêuticos são impotentes  para fazê-la cessar. Ela pode, em certos casos, ser consecutiva de uma fraqueza orgânica, mas jamais causa eficiente. Não se poderia, pois, dela razoavelmente conceber nenhuma  inquietação  do  ponto  de  vista higiênico;  não  poderia  ter inconveniente senão se o sujeito, tornado médium facultativo, dela fizesse uso abusivo, porque então  haveria  nele  uma  emissão  muito  abundante  de fluido   vital  e,  por  conseqüência,  o  enfraquecimento dos órgãos.

162. A razão se revolta à idéia das torturas morais e corporais às quais a ciência, algumas vezes, tem submetido a seres fracos e delicados, em vista de se assegurar se não havia fraude de sua parte; essas experimentações, com muita freqüência feitas com malevolência, são sempre nocivas aos organismos sensíveis; poderiam disso resultar graves desordens na economia; fazer tais provas é jogar com a vida. O observador de boa fé não tem necessidade do emprego desses meios; aquele que está familiarizado com essas espécies de fenômenos sabe, aliás, que pertencem mais à ordem moral do que à ordem física, e que se lhe procuraria inutilmente a solução nas ciências exatas.

Pelo fato desses fenômenos prenderem-se à ordem moral, deve-se  evitar, com um  cuidado não menos escrupuloso,  tudo   o que pode superexcitar a imaginação. Sabem-se os acidentes que o medo pode ocasionar e haveria menos imprudência se se conhecessem todos os casos de loucura  e  de  epilepsia  que  tiveram  sua origem nos contos de lobisomens e de espantalhos; que seria, pois, se se o persuadisse de que é o diabo? Aqueles que propagam tais idéias não sabem a  responsabilidade  que assumem: podem   matar. Ora, o perigo não está apenas para o sujeito, mas  também  para  todos os  que o cercam, e que podem estar  amedrontados  com o pensamento de que sua casa é um  antro  de  demônios.  Foi  essa  crença funesta que causou  tantos  atos  de  atrocidade  nos  tempos  de ignorância. Com um pouco mais  de  discernimento,  entretanto,  haveria  de se pensar que se queimando os corpos supostamente possuídos pelo diabo, não se  queimava  o  diabo. Uma vez que se quisesse desfazer do diabo, era a ele que se devia matar; a Doutrina Es-