O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 65

observação profunda e sobretudo, como de resto em todas as ciências humanas, continuidade e perseverança. São precisos anos para fazer um médico medíocre, e os três quartos da vida para fazer um sábio, e se quer em algumas horas, adquirir a ciência do Infinito. Portanto, não nos enganemos: o estudo do Espiritismo é imenso, toca em todas as questões da metafísica e da ordem social , e é todo um mundo que se abre diante de nós.

Deve-se espantar que é preciso de tempo, e muito tempo, para adquiri-lo?

A contradição, aliás, não é sempre tão real como pode parecer. Não vemos, todos os dias, homens que professam a mesma Ciência, variar na definição que dão de uma coisa, seja porque empregam termos diferentes, seja porque a examinam sob um outro ponto de vista, ainda que a idéia fundamental seja sempre a mesma? Que se conte, se possível o número de definições que deram da gramática. Acrescentemos, ainda, que a forma da resposta depende, freqüentemente, da forma da pergunta. Haveria, pois, puerilidade em procurar uma contradição onde não há, mais freqüentemente, senão uma diferença de palavras. Os Espíritos superiores não se prendem de modo algum à forma; para eles o fundo do pensamento é tudo.

Tomemos, por exemplo, a definição da alma. Esta palavra não tendo acepção fixa, os Espíritos podem, pois, assim como nós, diferir na definição que dão; um poderá dizer que ela é o princípio da vida, outro chamá-la centelha anímica, um terceiro dizer que ela é interna, um quarto que ela é externa, etc., e todos terão razão do seu ponto de vista. Poder-se-ia mesmo crer que, dentre eles, alguns professam teorias materialistas e, todavia, não ser assim. Ocorre o mesmo com relação a Deus; ele será: o princípio de todas as coisas, o Criador do Universo, a soberana inteligência, o Infinito, o grande Espírito, etc., etc., e, em definitivo, será sempre Deus. Citamos, enfim, a classificação dos Espíritos. Eles formam uma seqüência ininterrupta desde o grau inferior ao grau superior; a classificação é, pois, arbitrária: um poderá dar-lhe três classes, outro cinco, dez ou vinte, à vontade, sem estar, por isso, em erro. Todas as ciências humanas, a esse respeito, nos oferecem o exemplo: cada sábio tem seu sistema e os sistemas mudam, mas a Ciência não muda. Que se aprenda a botânica pelo sistema de Linneu, de Jussieu, ou de Tournefort, e ela será sempre a botânica. Cessemos, pois, de dar às coisas de pura convenção mais importância do que merecem, para nos prender  àquilo  que  é  verdadeiramente  sério  e,  freqüentemente, a reflexão fará descobrir, naquilo que parece o mais