O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 66

contraditório, uma semelhança que  havia  escapado a um primeiro exame.

XIV

Passaríamos ligeiramente sobre a objeção de certos céticos às falhas de ortografia cometidas por alguns Espíritos, se ela não devesse dar lugar a uma observação essencial. Sua ortografia, é preciso dizê-lo, não é sempre irrepreensível; mas é preciso ser bem curto de razão para fazê-la objeto de uma crítica séria, dizendo que, uma vez que os Espíritos sabem de tudo, eles devem saber ortografia. Poderíamos lhes opor os numerosos pecados desse gênero cometidos por mais de um sábio da Terra, o que não lhes tira o mérito. Mas há nesse fato uma questão mais grave. Para os Espíritos, e sobretudo para os Espíritos superiores, a idéia é tudo, a forma não é nada. Livres da matéria, sua linguagem, entre eles, é rápida como o pensamento, uma vez que é o pensamento que se comunica sem intermediário. Eles devem, pois, se encontrarem desacomodados quando são obrigados, para se comunicarem conosco, a se servir das formas longas e embaraçosas da linguagem humana, e sobretudo da insuficiência e da imperfeição dessa linguagem, para exprimir todas as idéias; é o que eles mesmos dizem. Também é curioso ver os meios que eles empregam, freqüentemente, para atenuar esse inconveniente. Seria o mesmo conosco se tivéssemos que nos exprimir numa língua mais extensa em suas palavras e em suas expressões, e mais pobre nessas expressões do que aquela que usamos. É o embaraço que experimenta o homem de gênio se impacientando com a lentidão de sua pena que está sempre aquém do seu pensamento. Concebe-se, depois disso, que os Espíritos liguem pouca importância à puerilidade da ortografia, quando se trata, sobretudo, de um ensinamento grave e sério. Já não é maravilhoso, aliás, que eles se exprimam indiferentemente em todas as línguas e as compreendam todas? Não é preciso concluir-se disso, todavia, que a correção convencional da linguagem lhes seja esconhecida: eles a observam quando isso é necessário. É assim que, por exemplo, a poesia ditada por eles desafia, freqüentemente, a crítica mais meticulosa, e isso malgrado a ignorância do médium.

XV

Há, ainda, pessoas que encontram perigo por toda a parte e em tudo o que não conhecem; também não faltam de tirar uma conseqüência desfavorável do fato de certas pessoas, em se entregando a estes estudos, terem perdido a razão. Como homens sensatos