O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 67

podem ver nesse fato uma objeção séria? Não ocorre o mesmo com todas as preocupações intelectuais sobre um cérebro fraco?

Sabe-se o número de loucos e de maníacos produzidos pelos estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? É preciso por isso banir esses estudos? O que isso prova? Pelos trabalhos corporais estropiam-se os braços e as pernas, que são os instrumentos da ação material; pelos trabalhos da inteligência estropia-se o cérebro, que é o instrumento do pensamento. Mas se o instrumento está quebrado, o Espírito não o está por isso: ele está intacto e, quando desligado da matéria, não goza menos da plenitude de suas faculdades. É no seu gênero, como homem, um mártir do trabalho.

Todas  as grandes preocupações do espírito podem ocasionar  a loucura: as ciências, as artes, a própria religião fornecem seus contingentes. A loucura tem por causa primeira uma predisposição orgânica do cérebro que o torna mais ou menos acessível a certas impressões. Estando dada uma predisposição à loucura, esta toma o caráter da preocupação principal que se torna então uma idéia fixa. Essa idéia fixa poderá ser a dos Espíritos, naquele que se ocupa com eles, como poderá ser a de  Deus,  dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma  arte,  de  uma ciência, da maternidade, de um sistema político-social.  É  provável que o louco religioso viesse a ser um louco espírita, se o Espiritismo tivesse sido sua preocupação dominante, como o   louco espírita o teria sido sob uma outra forma, segundo as circunstâncias.

Digo, pois, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio sob esse aspecto; mas, vou mais longe: digo que, bem compreendido, é um preservativo contra a loucura.

Entre as causas mais numerosas de superexcitação cerebral, é preciso contar as decepções, os desgostos, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais freqüentes de suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista bastante elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas, diante do futuro que o espera; a vida é para ele tão curta, tão fugidia, que as atribulações não são aos seus olhos senão os incidentes de uma viagem desagradável. O que, em outro, produziria uma violenta emoção, o afeta mediocremente; ele sabe, aliás, que os desgostos da vida são provas que servem para o seu adiantamento, se as suporta sem murmurar, porque será recompensado segundo a coragem com a qual as tenha suportado. Suas convicções lhe dão, pois, uma resignação que o preserva do desespero e, por conseguinte, de uma causa permanente de loucura e de suicídio. Ele sabe, por outro lado, pelo es-