O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 69

muitas manifestações espíritas podem se explicar por esse meio. Mas uma observação firme e atenta mostra uma multidão de fatos onde a intervenção do médium, de outro modo que como instrumento passivo, é materialmente impossível. Àqueles que partilham dessa opinião, diremos como aos outros: "vede e observai, porque seguramente não vistes tudo". Opor-lhe-emos, em seguida, duas considerações tiradas da sua própria doutrina. De onde veio a teoria espírita? É um sistema  imaginado por alguns homens para explicar os fatos? De nenhum modo. Quem, pois, a revelou? Precisamente esses mesmos médiuns, de quem exaltais a lucidez. Se, pois, essa lucidez é tal como a supondes, porque teriam eles atribuído aos Espíritos o que possuíam em si mesmos? Como teriam dado essas informações tão precisas, tão lógicas, tão sublimes sobre a natureza dessas inteligências extra-humanas? De duas coisas, uma: ou eles são lúcidos ou não o são. Se o são e se se confia em sua veracidade, não se poderia, sem contradição, admitir que eles não estão com a verdade. Em segundo lugar, se todos os fenômenos tivessem sua fonte no médium, eles seriam idênticos no mesmo indivíduo, e não se veria a mesma pessoa ter uma linguagem discordante  e  exprimir  alternativamente  as  coisas mais contraditórias. Essa falta de unidade nas manifestações obtidas pelo médium prova a diversidade das fontes; se,  pois, não se  as pode encontrar todas  no  médium,  é  preciso  procurá-las fora dele.

Segundo outra opinião, o médium é a fonte das manifestações, mas em lugar de as tirar de si mesmo, assim como o pretendem os construtores da teoria sonambúlica, ele as tira do meio ambiente. O médium seria assim uma espécie de espelho refletindo todas as idéias, todos os pensamentos e todos os conhecimentos das pessoas que o cercam; ele não diria nada que não fosse conhecido pelo menos de alguns. Não se poderia negar, e isso é mesmo um princípio da doutrina, a influência exercida pelos assistentes sobre a natureza das manifestações . Mas essa influência é diferente daquela que se supõe existir, e, daí a que o médium seja o eco de seus pensamentos, há uma grande distância, porque milhares de fatos estabelecem peremptoriamente o contrário. Há nisso, pois, um erro grave que prova, uma vez mais, o perigo das conclusões prematuras. Essas pessoas, não podendo negar a existência de um fenômeno, do qual a Ciência vulgar não pode se aperceber, e não querendo admitir a presença dos Espíritos, o explicam a seu modo. Sua teoria seria sutil se ela pudesse abraçar todos os fatos; mas não é assim. Quando se lhes demonstra, até a evidência, que certas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, às próprias opiniões dos assistentes, que essas comuni-