O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 71

Poderíamos citar numerosos fatos que demonstram, na inteligência que se manifesta, uma individualidade evidente e uma independência absoluta de vontade. Remetemos, pois, os dissidentes a uma observação mais atenta; se querem estudar sem prevenção e não concluir antes de ver tudo, eles reconhecerão a impossibilidade de sua teoria para dar a razão de tudo. Limitar-nos-emos a colocar as questões seguintes:  Por que a inteligência que se manifesta, qualquer que ela seja, recusa responder a certas questões sobre assuntos perfeitamente conhecidos como, por exemplo, sobre o nome ou a idade do interrogante, sobre o que tem na mão, o que fez na véspera, seu projeto do dia seguinte, etc.? Se o médium é o espelho do pensamento dos assistentes, nada lhe seria mais fácil do que responder.

Os adversários retrucam o argumento perguntando, por seu turno, por que os Espíritos, que devem tudo saber, não podem dizer coisas tão simples, segundo o axioma: quem pode o mais, pode o menos; de onde concluem que não  são  os Espíritos. Se um ignorante ou um zombador se apresentando diante de uma douta assembléia, perguntasse, por exemplo, por que é dia em pleno meio-dia, crê-se que ela se daria ao trabalho de responder seriamente? E seria lógico concluir-se, de seu silêncio ou escárnio com que gratificasse o perguntador, que seus membros não são senão tolos? Ora, é precisamente porque os Espíritos são superiores, que eles não respondem a questões ociosas e ridículas, e não querem ser colocados em evidência. Por isso, eles se calam ou dizem se ocupar de coisas mais sérias.

Perguntaremos enfim, por que os Espíritos vêm e se vão, freqüentemente, num momento dado, e por que passado esse momento, não há preces nem súplicas que os possam fazer voltar? Se o médium não agisse senão pelo impulso dos assistentes, é evidente que, nessa circunstância, o concurso de todas as vontades reunidas deveria estimular sua clarividência. Se, pois, ele não cede ao desejo da assembléia, corroborado pela sua própria vontade, é porque obedece a uma influência estranha a ele e aos que o rodeiam, e essa influência acusa, com isso, a sua independência e a sua individualidade.

XVII

O ceticismo, no tocante à Doutrina Espírita, quando não é o resultado de uma oposição sistemática interessada, tem quase sempre sua fonte no conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede certas pessoas de decidir a questão como se a conhecessem perfeitamente. Pode-se ter muito espírito, instrução mesmo,