O LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO 72

e carecer de julgamento. Ora, o primeiro indício de uma falha no julgamento é crer-se infalível. Muitas pessoas, também, não vêem nas manifestações espíritas senão um objeto de curiosidade; esperamos que, pela leitura deste livro, elas encontrarão nesses fenômenos estranhos outra coisa além de um simples passatempo.

A ciência espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral, outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Aquele que não observou senão a primeira, está na posição daquele que não conhece a física senão por experiências recreativas, sem ter penetrado no fundo da ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos, e os conhecimentos que esse ensinamento comporta são muito graves para serem adquiridos de outro modo que por um estudo sério e continuado, feito no silêncio e no recolhimento; porque só nessa condição se pode observar um número infinito de fatos e de nuanças que escapam ao observador superficial e permitem assentar uma opinião. Este livro, não tivesse ele por resultado apenas mostrar o lado sério da questão e provocar estudos nesse sentido, isso já seria muito, e nos aplaudiríamos de ter sido escolhido para realizar uma obra da qual não pretendemos, de resto, nos fazer nenhum mérito pessoal, uma vez que os princípios que ela encerra não são nossa criação; seu mérito, portanto, é inteiramente dos Espíritos que a ditaram. Esperamos que ela tenha um outro resultado, o de guiar os homens desejosos de se esclarecerem, mostrando-lhes, nesses estudos, um objetivo grande e sublime: o do progresso individual e social, e de lhes indicar o  caminho  a  seguir  para atingi-lo.

Concluímos com uma última consideração. Os astrônomos, sondando o espaço, encontraram, na distribuição dos corpos celestes, lacunas não justificadas e em desacordo com as leis do conjunto; eles supuseram que essas lacunas deveriam estar ocupadas por globos que escaparam à sua observação; de outro lado, observaram certos efeitos dos quais a causa lhes era desconhecida, e disseram a si mesmos: Ali deve haver um mundo,  porque essa lacuna não pode existir e esses efeitos devem ter uma causa. Julgando, então, da causa pelo efeito, puderam calcular os elementos, e mais tarde os fatos vieram justificar  as  suas previsões.

Apliquemos esse raciocínio a uma outra ordem de idéias. Se se observar a série dos seres, verifica-se que eles formam uma cadeia sem solução de continuidade, desde a matéria bruta, até o homem mais inteligente. Mas entre o homem e Deus, que é o alfa e o ômega de todas as coisas, que imensa lacuna! É racional