O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO II 949

3. Os Judeus não tinham senão idéias muito incertas quanto à vida futura; acreditavam nos anjos, que consideravam como os seres privilegiados da Criação, mas não sabiam que os homens pudessem vir a ser, um dia, anjos e partilhar sua felicidade. Segundo eles, a observação das leis de Deus era recompensada pelos bens da Terra, pela supremacia da sua nação, pelas vitórias sobre seus inimigos; as calamidades públicas e as derrotas eram o castigo de sua desobediência. Moisés, sobre isso, não poderia dizer mais a um povo pastor, ignorante, que devia ser tocado, antes de tudo, pelas coisas deste mundo. Mais tarde Jesus veio lhes revelar que há um outro mundo onde a justiça de Deus segue seu curso; é esse mundo que ele promete àqueles que observam os mandamentos de Deus, e onde os bons encontrarão sua recompensa; esse mundo é o seu reino; é aí que ele está em toda a sua glória, e para onde vai retornar ao deixar a Terra.

Entretanto, Jesus, conformando seu ensinamento ao estado dos homens da sua época, não acreditou dever lhes dar uma luz completa, que os teria ofuscado sem esclarecê-los, porque não o teriam compreendido; ele se limitou a colocar, de alguma sorte, a vida futura em princípio, como uma lei natural à qual ninguém pode escapar. Todo cristão crê, pois, forçosamente na vida futura; mas a idéia que muitos fazem dela é vaga, incompleta, e por isso mesmo falsa em vários pontos; para um grande número, não é senão uma crença sem certeza absoluta; daí as dúvidas e mesmo a incredulidade.

O Espiritismo veio completar, nesse ponto como em muitos outros, o ensinamento do Cristo, quando os homens estavam amadurecidos para compreenderem a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais um simples artigo de fé, uma hipótese; é uma realidade material demonstrada pelos fatos, porque são as testemunhas oculares que vêm descrevê-la em todas as suas fases e em todas as suas peripécias, de tal sorte que, não somente a dúvida não é mais possível, mas a inteligência mais vulgar pode fazer idéia do seu verdadeiro aspecto, como se imaginasse um país do qual se leu uma descrição detalhada. Ora, essa descrição da vida futura é tão circunstanciada, as condições de existência feliz ou infeliz daqueles que aí se encontram são tão racionais, que podemos dizer, apesar disso, que ela não pode