O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO V 982

da, de nobres sentimentos inatos que parecem não ter trazido nada de mau de sua precedente existência, e que suportam, com uma resignação toda cristã, as maiores dores, pedindo a Deus para as suportar sem lamentações. Podem-se, ao contrário, considerar como expiações as aflições que excitam as queixas e compelem o homem à revolta contra Deus.

O sofrimento que não excita lamentações pode, sem dúvida, ser uma expiação, mas é o indício de que ele foi antes escolhido voluntariamente do que imposto, e a prova de uma forte resolução, o que é um sinal de progresso.

10. Os Espíritos não podem aspirar à felicidade perfeita senão quando são puros; toda mancha lhes interdita a entrada nos mundos felizes. Tais são os passageiros de um navio atingido pela peste, aos quais a entrada de uma cidade é interditada até que estejam purificados. É nas suas diversas existências corporais que os Espíritos se despojam, pouco a pouco, de suas imperfeições. As provas da vida adiantam, quando bem suportadas; como expiações, elas apagam as faltas e purificam; é o remédio que limpa a chaga e cura o enfermo; quanto mais grave é o mal, mais o remédio deve ser enérgico. Aquele, pois, que sofre muito, deve dizer-se que tem muito a expiar, e se regozijar de ser logo curado; depende dele, pela sua resignação, tornar esse sofrimento proveitoso, e de não perder-lhe os frutos pelas lamentações, sem o que estaria por recomeçar.

ESQUECIMENTO DO PASSADO

11. É em vão que se objeta o esquecimento como um obstáculo no sentido de que se possa aproveitar a experiência das existências anteriores. Se Deus julgou conveniente lançar um véu sobre o passado, é porque isso devia ser útil. Com efeito, essa lembrança teria graves inconvenientes; poderia, em certos casos, nos humilhar estranhamente, ou exaltar o nosso orgulho, e, por isso mesmo, entravar o nosso livre arbítrio; em todos os casos, traria uma perturbação inevitável nas relações sociais.

O Espírito renasce, freqüentemente, no mesmo meio em que viveu, e se acha em relação com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes fez. Se reconhecesse nelas as que odiou, talvez seu ódio se revelasse; em todos os casos, seria humilhado diante dos que houvesse ofendido.